domingo, 27 de dezembro de 2009

Do suicídio (Osvaldo)


Boas referências ao tema também se encontram no livro "O mito de Sísifo" de Camus, que ao meu ver também é de maior compatibilidade e congruência ao tema por se tratar de uma abordagem existencialista. Na obra ele também começa citando que só existe um problema absolutamente sério e este é o suicídio, e cita também a questão do "absurdo", uma ótima literatura, embora às vezes um tanto prolixo demais.
Penso antes de qualquer coisa que devemos nos certificar das causas medicinais, da psiquiatria, que hoje claramente "diagnostica" um ímpeto de vontade suicida se o mesmo for de ordem de desajustes bioquímicos e advindos de estados depressivos profundo; pois qualquer banalidade que não seja de ordem "existencial" também é motivo de depressão.
Creio que o homem moderno mais do que nunca se defronta com estados de "lampejos" frequentes acerca de sua existência; e isto se dá ao fato da saída de um estado contemplativo em oposição ao mergulho puramente racional dos menos preparados a viver suas vidas sem um auxílio metafísico, no sentido da garantia do determinismo do homem e seu post mortem.
O homem vive cada vez mais cercado de estímulos que o leva a um foco fora de si; o hedonismo não é um "amuleto" de auto-suficiência que corrobora com a sensação de bem estar permanente, e até lembrando da metafísica da vontade de Schopenhauer quando este cita a efemeridade dos desejos humanos.
Pois bem, então penso que é dado um momento de nossas vidas, ou vários deles, que nos assombramos com o sentido da própria existência independentemente de sermos filósofos, religiosos ou cientistas. Mas pior ainda é quando hoje estamos envoltos de uma realidade social que não se explica em si mesma; o homem passa a ser seu pior inimigo, resultado de um movimento histórico do absoluto almejo do "fora-de-si" ontologicamente dizendo.
A consciência do homem enquanto ser social, gregário, e constituinte de seu próprio meio, desvirtuou-se ao longo do tempo no sentido de negação de si mesmo em auto-análise.
Sempre se tratou o suicídio apenas como um fenômeno social, mas penso que ao contrário, trata-se da relação entre o pensamento individual e o suicídio. Um gesto desses se prepara no silencio do coração como uma grande obra.
Começar a pensar é começar a ser atormentado. A sociedade não tem muito a ver com esse começo, a não ser pela promoção dissociativa do homem de seu meio que o torna cego à questões mais pragmáticas de seu cotidiano, porém, não obstante, penso que exista uma má sinergia do homem contemporâneo entre o pragmatismo enquanto cumprimento de seu papel social e uma má fé no mesmo quando este deveria ser antidogmático.
Há vários motivos para o suicídio, em sua maioria motivos "superficiais". A noção de "Absurdo" que trata Camus, do "Nada", da "Angústia" e "Inautenticidade" de Sartre, são interpretados com má fé ou concebidos tardiamente e equivocadamente.
Raramente alguém se suicida por reflexão. O que desencadeia a crise é quase sempre incontrolável. Torna-se então difícil o instante preciso, o percurso sutil que o espírito apostou na morte, é mais simples extrair do gesto em si as conseqüências que ele supõe.
Matar-se, em certo sentido, é como um melodrama; confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos, que isto "não vale a pena".
Penso que viver, de certa forma, não é fácil, mas refutar a vida em meu conceito é um ato de covardia. Continuamos fazendo os gestos que a existência impõe por muitos motivos, o primeiro dos quais é o costume, de um caráter ridículo, ausência de um motivo profundo, de caráter insensato da agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento.
O "Absurdo" existencial talvez ocorra de forma mais clara no confronto da razão que é insuficiente para o homem formular todos os aspectos existenciais e volitar em diversas hipóteses, pressuposições e proposições da mesma. É dado ao homem em sua grande maioria se apegar a uma "fé" somente que lhe norteie a vida.
Permanecendo ainda em uma questão existencialista, penso que o homem deve rejeitar o suicídio na medida em que assume um estado de revolta e aceita o caráter absurdo da vida, de forma "suficiente", aceitando suas contingências.
Schopenhauer parte de um caráter mais profundo porque sai de um fundamento metafísico, da doutrina da negação do querer viver É estranho o fato de Schopenhauer "negar" o ato suicida tendo em vista toda uma analogia ao niilismo passivo e ressentido em relação à vida, se fizermos um certo correlato, ele e Camus de certa forma comungam com algumas coisas; pois me parece que para um schopenhaueriano a vida também é absurda, mas seu caráter é menos denso do que para um ateísta que não acredita em uma metafísica que seja, mesmo que de cunho pessimista.
Não poderia deixar de finalizar com Nietzsche quando ele cita o "amor fati", o niilismo ativo:
"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.
Onde leva? Não perguntes, segue-o!"
A vida exige que se enfrente sofrimentos, incógnitas e obstáculos sem fim, entretanto, ela é cheia de mistérios e tesão que, inexoravelmente, nos fazem até estarmos aqui debatendo estes temas, ao menos por enquanto; pois não nos esqueçamos que podemos dizer não a tudo isto e viver ordinariamente.
Não vamos também nos esquecer do suicídio mental, que é um problema de maior cunho iminente.
Bem, o termo suicídio mental ou intelectual me veio como insight na hora que escrevia o texto do tópico aqui,
Eu penso que toda fuga que o homem possa ter referente a sua condição enquanto "ser-no-mundo", se traduz como um suicídio intelectual, da aquisição de valores fúteis e volatilidade se si e de teorias, em detrimento de sua razão frente a ilusões adquiridas e vivenciadas "ipsis-litteris" dos fenômenos dados à consciência.
Ao se discutir a questão do sentido do ser, a fenomenologia compreende a verdade com um caráter de provisoriedade, mutabilidade e relatividade, radicalmente diferente do entendimento da metafísica que pressupõe uma condição estável e absoluta.
Esta é uma das razões de dizer que a fenomenologia é uma postura ou atitude, um modo de compreender o mundo, e não uma teoria, um modo de explicar.
Isso em ultima análise, representa o rompimento do clássico sujeito/objeto.
Para além desta minha menção acima, podemos no referir às marteladas de Nietzsche no quesito temporalidade de conceitos e desnivelamento intelectual do homem.
A coadunação do homem com o sistema vigente e a hiper realidade, sem a desconfiança mínima de um caráter malicioso que jaz por detrás disto, o leva ao ordinário, se locupletando no trivial e banal. Desta forma o homem se conforta em um estado de realidade "forjada", um simulacro, que deleta de sua mente quaisquer resquícios de crítica mediante tais fatos; sua racionalidade é também volátil e tende a dar as mãos com a melhor e menos custosa das aquisições enquanto objetos para o sujeito, uma zona de conforto intelectual que se resume na imbecilidade do ser humano.
Viver autenticamente é viver na plena consciência da nulidade do próprio ser, e plena consciência da nulidade significa estar certo de que nosso futuro é a morte.
De fato nossa "natureza" também é nada até que um caráter é escolhido. Somente desse modo podemos viver autenticamente em termos existencialistas.
Voltando ao assunto do suicídio, penso que indubitavelmente o homem é assolado por este fantasma do "Nada", ou um estado de ansiedade e angústia.
A ênfase de Nietzche no papel fundamental da "vontade" fornece a base do pensamento existencial, uma filosofia de "liberdade" desejada e o inescapável fato da escolha humana mediante a nulidade, e a fenomenologia visa uma austera inspeção dos conteúdos lógicos da mente, que Heiddeger usa para investigar estados extremos de ansiedade, preocupação, autenticidade e o nada.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Esperança na educação? (Osvaldo)


Nossa sociedade nunca falou tanto em educação: violência, desemprego, aquecimento global, mudança de valores. É na educação que imaginamos encontrar a solução de todos os impasses que vivemos. Mas será que escola pode dar conta dessa enorme expectativa?
Que tipo de pessoa a escola busca formar? Enfim, o que é a escola hoje?
A escola é uma forma de educar que nasceu na Grécia antiga, com propósito de formar cidadãos, mas foi só com a modernidade que adquiriu o objetivo que tem hoje: formar mão de obra de qualidade.
Desde então, basicamente nada mudou. O modelo educacional que predomina ainda hoje no mundo foi influenciado pela revolução industrial, é como se a escola fosse uma linha de montagem como em uma fábrica.
Português, matemática, química, geografia, etc, são peças a serem encaixadas; no final da linha sai um produto para atender as exigências do mercado, um aluno formado.
Mas hoje diante do enorme desenvolvimento tecnológico, e ao mesmo tempo, o extremo caos social em que vivemos, precisamos nos perguntar: será que é apenas para o mercado que a educação deve nos formar?
A escola que nós temos ainda é aquela que parece que é o único espaço de construção do conhecimento científico, e não é.
Segundo o filosofo e educador Edgard Morin, a escola não lida com indivíduos, mas com uma massa de alunos.A escola não está montada para desenvolver a capacidade de cada um, apenas ensina conteúdos isolados, separados um dos outros sem relação com a vida, acumulando informações que se empilham, sem sentido.
Penso que não existe uma separação dos saberes, só fazemos isto metodologicamente.
Vivemos numa sociedade cada vez mais desigual, dividida, e nós não podemos nos omitir e achar que tudo isto não nos atinge. Costumamos falar de um ser humano violento, cruel, que destrói o planeta, que desrespeita o vizinho e a cidade. Mas não falamos de um novo cidadão e de uma nova "cidade", portanto mais do que nunca devemos nos perguntar: "Quem somos, quem queremos ser, e qual a"cidade" em que queremos viver?"

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Da música como arte que transcende (Osvaldo)


Schopenhauer e a música, que eu tanto gosto. Os méritos vão para ele nessas afirmativas quando o mesmo a elucida como uma via de atenuar a "vontade", e sem sombra de duvida o mérito de expor a música como uma das mais importantes das artes e seu efeito sobre o homem é dele.
Nietzche recorda a velha lenda na qual o rei Midas procura Sileno, o companheiro constante de Dionísio, e lhe pergunta: "Qual é a maior felicidade do homem?" O demônio permanece mal-humorado e sem se comunicar, até que finalmente, forçado pelo rei, solta um riso agudo e diz:
"Patife efêmero, nascido por acidente e trabalho árduo, por que me obrigas a dizer-te o que seria tua maior benção não ouvir? O que seria melhor para você está bem fora de seu alcance: não ter nascido, não ser, ser"nada". Mas a segunda melhor coisa é morrer cedo!"
Como a cultura helênica suportou essas terríveis verdades? Com a ajuda de outro deus: Apolo.
Apolo, o Sol, deus da ordem e da razão, incorporado no sonho da ilusão, representa o homem civilizado. O culto apolíneo gera otimismo.
Sua insistência na forma, na beleza visual e na compreensão racional ajuda a fortificar-nos contra o terror dionisíaco e o frenesi irracional que ele produz.
Para serem capazes de viver os gregos deviam colocar diante de si mesmos a brilhante fantasia do Olimpo, com Apolo como seu maior deus. Autocontrole, autoconhecimento e moderação: o caminho do meio de Aristóteles.
Nietzche pergunta então que efeito estético é produzido quando as forças da arte e apolínea e dionisíaca, usualmente separadas, são forçadas a trabalhar lado a lado. Ou para dize-lo de forma mais precisa, em que relação a música se coloca frente à imagem e ao conceito.
A melhor resposta estaria com Schopenhauer:
"a musica se diferencia de todas as outras artes pelo fato de que não é uma copia do fenômeno, mas uma copia direta da própria vontade."
Ainda ao meu ver coadunando com Schopenhauer, Nietzche diz que a arte dionisíaca, portanto, afeta o talento apolíneo de uma maneira dupla. Primeiro, a musica nos incita a uma intuição simbólica do espírito dionisíaco, em segundo lugar, dá aquela imagem de significação suprema.
O espírito dionisíaco na musica nos faz entender que tudo que nasce deve ser preparado para enfrentar sua dolorosa dissolução. Ele nos força a olhar fixamente o horror da existência individual, porém sem sermos transformados em pedra pela visão.

Crítica ao cristianismo (Osvaldo)


Soa um tanto "romântico" e abstrato demais ainda o fato do homem estar à procura de uma síntese que o justifique em sua existência além daquela que o recoloque em seu papel social, interpessoal e constituinte de uma coletividade.
Eu penso que toda e qualquer abstração ou proposição que tenha implícito uma ordem de incognoscibilidade para o homem apenas o afasta de sua própria compleição enquanto ciência de si mesmo e perda de suas matrizes instintivas.
Dada qualquer circunstância que nos leve para um atributo de atemporalidade, este ainda nos remete a simples contingências que nos desconectam de um estado contemplativo de sermos "solistas" para engendramos nossa própria historia concomitantemente com o tempo a nossa frente; excluindo ou atenuando desta forma um maior vislumbre do bojo existencial ao qual somos inseridos na qualidade de humanos, e da mesma forma sermos menos resistentes a "frustrações" que, em nossa existência, se contrapõem a "idéias" nas quais subjazem certas explanações categóricas que ilustram o ser humano de forma reducionista; esquecendo das premissas ontológicas num sentido mais existencial.
Não adoto nenhuma postura que seja puramente "externa" a mim; ao menos tento preservar o fato de que enquanto homem preciso cotidianamente dar um sentido a tudo e reinventar-me.
Penso que a cultura é nossa meta mais importante, poderíamos perguntar o que acontece com as teorias metafísicas que especulam sobre a natureza fundamental da realidade usando apenas a razão. A possibilidade absoluta da metafísica dificilmente pode ser discutida, portanto também não posso ser radical ao extremo, partindo do pressuposto que tudo está no crivo da razão humana.
Apenas penso que teorias que tentam responder a esta questão estão fora do escopo da investigação humana. Historicamente, esta questão sempre exerceu um fascínio sobre os filósofos, mas que ganhamos ao especular o tempo todo a existência de uma dimensão metafísica? Por que?
Porque somos habitantes de um mundo físico, somente aqui nossos pensamentos e desejos têm uma aplicação; e é através deste processo que o homem deve se aprimorar cada vez mais tendo ciência das idiossincrasias perpetuadas por ele mesmo; e não advindas de uma realidade subjacente; forças antagônicas que anulam o potencial humano e o reduzem ao cataclismo especulativo e escatológico.
O homem precisa bem mais de motivação de suas capacidades latentes do que o constante levantamento de suas temeridades.
Eu mesmo nada posso afirmar em relação à existência de Deus, me posiciono em um patamar agnóstico; nada, além disso.
Carl Seagan: " A ausência de evidencia não evidencia a ausência".
Mas sigo Nietzsche no que diz respeito ao cristianismo como um todo, e toda outra religião de massas. Defendo de certa forma a filosofia budista, sou simpático ao movimento de Richard Dawkins e na questão virtude sigo o raciocínio do amigo Jório.
Mesmo dada existência de Deus, não se pressupõe que o homem tenha que se lograr nesta fé para ter sua formação social e altos valores apreciativos para com seu semelhante, portanto digo novamente que "existir" é o que importa, nossos maiores problemas sociais estão veementemente truncados com uma metafísica não somente das más interpretações de livros sagrados, dogmas e ditames escatologicos e apocalípticos que inculcam uma má fadada moral e virtude para com o outrem, mas também porque o homem é temeroso e covarde de sua própria historia de mundo, de seu existir.
Eu li uma trilogia literária um dia que se chama "Conversando com Deus", que creio que seja uma obra muito rica e para além de nosso tempo para quem quer se livrar do conceito de "demiurgo" do velho barbudo sentado no trono dos céus. O que extrai ainda desta obra é um papel existencial do ser humano, pois deus não vai interferir na tua vida, na minha e de ninguém aqui; você é dado ao mundo, faça sua existência; pois suas ações são inexoravelmente marcas no todo da coletividade, sejam elas boas ou ruins.
Existencialismo também é humanismo.
Bem, vou entrar aqui em defesa de Schopenhauer e sua primazia sobre a ética cristã, isto na minha opinião é singular, pois é dada a natureza humana se referir ao outro e entendo que isto está inserido de certa forma na "compaixão" que cita Schopenhauer.
Agora, Rodrigo meu caro, longe se soar uma atribuição que lhe estou dando, percebo um proselitismo de tua parte ao defender o cristianismo.
Ao que me parece, até bem pouco tempo atrás e inferido de suas postagens passadas, você simpatizava com as "marteladas" de Nietzche acerca da moral estabelecida; e esta é veementemente associada ao transcorrer do cristianismo em nossa historia de humanidade, uma mancha sem precedentes na qual o ser humano foi desprovido de toda sorte de auto-crítica em prol de um sistema infame, pífio, hediondo, expoente do irracionalismo humano e suas idiossincrasias no que refere a uma alteridade do ser humano somente em função de seu ego salvo pelas indulgências do pai e do filho.
Refuto seu pressuposto que na moral cristã estão os exemplos de "valores" humanos, pois estes são em função da "pseudo" salvação do próprio homem, ainda um expoente egóico em detrimento das reais motivações para o bem comum, ou seja, não há a necessidade de uma moral cristã ou outra que seja estabelecida para fundamentar o homem enquanto pré-determinismos para o embate entre o "bem e o mal".
É impossível que toda o boa ação humana seja por causa de uma moral cristã tão somente, ao meu ver, como um existencialista, isto seria apenas uma linguagem para se realizar o desejo, uma ação voluntária inerente ao ser sem o escopo de uma determinação.
Na própria filosofia temos vários autores que mesmo sem a concepção de um criador formulam exemplares passagens acerca de um humanismo.
o cristianismo tolhe completamente o homem, assim eu refuto veementemente este conceito.
Se eu hoje tiver que dar um conselho para alguém que quer seguir uma religião, que este seja budista.
A imagem de Deus está diretamente e inexoravelmente relacionada a uma antropormofização do mesmo como ente paralelo e demiurgo em relação ao ser humano; esta é a carga cultural que todos temos, e vejo em Nietzsche um expoente ao atacar essas mazelas da maior massificação religiosa que existiu.
Eu mesmo já fui evangélico por forças das circunstancias quando era criança, depois fui católico, espírita e tudo foi passando pelo crivo de uma crítica sob a luz de um raciocínio não extemporâneo da realidade que o homem se encontra. A religião e seus conteúdos são meramente muletas existenciais ao homem fraco e acovardado mediante seu existir.
Como já lhe disse, Deus não iria, se fosse o caso, interferir nas ações humanas e tampouco Cristo, pois se você acredita que foi "dado" a existir por parte de uma pré-determinação, dentro disto ainda você iria se defrontar com suas questões existenciais (vide Kierkegaard).
A volatilidade e alta tensão que o ser humano encontra comparados com as premissas evangélicas são inconcebíveis no ponto de vista existencial. Mesmo partindo do pressuposto da vida de Jesus Cristo e sua passagem "existencial" até sua crucificação, ainda resta ao homem ou indagar acerca do absurdo existencial ou dar um salto de fé no fundamentalismo religioso, que via de regra é cego e anárquico no sentido de instintos represados; se fores um homem não tens vocação à santidade, pois esta está em fabulas fictícias somente.
Por que você acha que seria conveniente ao homem ter este conceito "evangelizador"?
Convicções morais de ordem religiosa são, portanto, sempre convicções de grupo, e o grupo é maior que qualquer indivíduo discordante. Com a moral, o indivíduo só pode dar valor a si mesmo como uma função do rebanho. A censura e o controle moral somente podem surgir através do consenso social.
Ela representa o poder daqueles que são individualmente fracos, mas coletivamente fortes. Suas leis os protegerão (eles esperam), assim como justificarão o seu modo de vida.
Não ter a certeza desta metafísica religiosa, ou mesmo nega-la, apresenta um terrível e ao mesmo tempo hilariante pensamento. Terrível porque mos sentimos abandonados por nosso antigo protetor, e ao mesmo tempo hilariante porque subitamente nosso mundo se abre ao infinito. "Qualquer coisa" agora é imaginável, qualquer aventura temerária do conhecimento está permitida outra vez.
Não há nada natural na religião organizada. Pode-se substituir a palavra "natureza" por "neurose", pois não vejo nada natural nisto. A história viu numerosas "epidemias" religiosas (por exemplo, a inquisição, o fundamentalismo, a auto-flagelação corporal e psicológica), mas a aflição, a angustia, o absurdo sempre existiu em algum nível no ser humano.
Resta ao ser humano que tenta refutar a fé cristã um profundo sentimento de condenação por sua própria razão, uma temeridade e temor; parece, de uma maneira terrível, um prolongado suicídio da razão; pois a fé cristã desde o começo é sacrifício, escatologia temerária para o homem, sacrifício de toda liberdade, toda autoconfiança de espírito, e ao mesmo tempo escravidão e auto-escárnio, automutilação.
Kierkegaard embora cristão chamou a fé de "divina loucura", um "absurdo" que requeria um "salto" sobre nossa capacidade de raciocínio. Uma condição de que nenhum desespero existe e também uma formula de acreditar, ou está transparentemente ligado ao poder que o constitui; mas é auto-sacrifício outra vez; neste caso, para salvar seu espírito do desespero.
O homem faz o máximo de seu sofrimento, mas ironicamente, existem elogios à religião quando ela serve ao homem comum. A maioria dos seres humanos encontrará grande consolo nos ensinamentos religiosos.
"aos mansos e humildes será dada posição igual que os mais importantes da terra"; "todos são iguais aos olhos de Deus"; "nossos sofrimentos atuais são uma apólice de seguro para a felicidade futura".
Acreditar em tais idéias traz contentamento para os homens. É necessária uma vontade FORTE para dizer NÂO quando tanto está sendo oferecido.
Desde que existem os seres humanos existem também os rebanhos humanos (grupos familiares, comunidades, tribos, nações, estados igrejas), e sempre muitos que obedecem, comparado com o pequeno número daqueles que ordenam; considerando, por assim dizer, que até agora foi praticado e cultivado entre os homens de forma melhor ou por mais tempo do que a obediência, é justo supor que como regra, ter uma necessidade dela é, por agora, algo inato, como um tipo de "consciência formal" que ordena: você tem que fazer isso incondicionalmente, e incondicionalmente não fazer aquilo, em poucas palavras, uma obrigatoriedade.
Esta necessidade procura ser satisfeita e preencher suas formas com conteúdo: fazendo isso ela agarra tudo a sua volta sem pensar, de acordo com o grau de sua força, impaciência e tensão, como um apetite bruto, e aceita qualquer coisa que qualquer comandante, pai, professor, lei, preconceito de classe, opinião publica, gruta aos seus ouvidos.
O conceito de bem e de mal está inextricavelmente unido à moral cristã; em uma época anterior (pré-moral?) não teria utilidade para o conceito. Aquilo que uma época considera ser o mal é usualmente um eco posterior e extemporâneo daquilo que anteriormente era considerado o bem, o atavismo de um ideal mais antigo.
Desta maneira a mágica, a ausência de deus. A adoração de falsos deuses (satanismo?), o comportamento irracional (esquizofrenia?), o erotismo, foram todos classificados como fenômenos "do mal" do ponto de vista do grupo em uma outra época. Isso porque eles elevavam o individuo acima do grupo, ameaçando a maioria. Que essa ameaça seja chamada de mal!
Por fim peço desculpas se meu texto soa um tanto "acirrado", mas eu particularmente esperava uma crítica sua longe da sombra do cristianismo; ao invés de usa-lo como um fim. E sua suposição de que a bíblia foi alterada, eu diria que ela só existe a partir de seus fundadores sob uma razão coercitiva mediante mistérios insondáveis da natureza humana; é a pior obra que já existiu na vida.
As criticas em relação a Nietzsche mostram duas vertentes; ou você de fato é cristão ou, como a maioria das pessoas, lê-se mais de Nietzsche do que ele realmente escreveu, e o acusa de formar até o nazismo pela precariedade de quem lê de ordem hermenêutica.
A crença evangélica e as igrejas que a ela representa, não são mais naturais para mim. Com os evangélicos e católicos de carteirinha não há diálogo saudável e sustentável; pois eles são "delirantes" a ponto de dar medo e de não querer gastar meu latim.
Um exemplo disso é que o fundamentalismo cristão das pessoas não nos permite uma aproximação "fraterna" sem que elas tirem seus "óculos" da moral de cristo todo poderoso. Não há meio termo aqui, compreende? Ser cristão é inexoravelmente estar preso em uma camisa de forças da irracionalidade humana.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Da auto consciência da mulher na sociedade (Osvaldo)


O fato é que (uma observação minha) eu percebo uma certa constância das mulheres em geral, não todas, levarem muito as elucubrações filosóficas antes por um crivo deveras emocional; isto é percebido em muitas comunidades.
Um pensamento raso meu com toda certeza. Mas ainda quero tentar provar o contrario.
Já fiz convites a algumas delas, de outras comunidades, mas até agora uma velha conhecida se prontificou, e foi bem autentica dizendo que só dará futuras contribuições quando estudar mais acerca de Schopenhauer.
Não obstante, é desnecessário citar o escárnio de tantos filósofos sobre elas, algo que não concordo muito, ou em quase nada; pois se inserem na questão de "ontologia" assim como nós os homens; portanto talvez a importância do existencialismo para todos nós, quando este se resume também em "humanismo"; ao menos o de Sartre, que com sua companheira, de modo de um não interferir no outro, teve uma grande crítica ao seu lado!
Uma é a inexorável questão de sentimentos que impregnam as mulheres no que se refere à sua composição e o papel que lhe foi "concebido" ao longo das eras.
Não precisamos nos basear em filósofos e nem em axiomas aqui para tal; pois mesmo perante uma observação constante de seus atributos, comportamentos, e anseios; podemos inferir como ela se "apercebe" no meio social.
Hoje a mulher mais do que nunca procura sua autonomia em contrapartida ao "poder" masculino estabelecido; já não são meras donas de casa, e menos que isto, subservientes ao homem no papel esposa.
Não raro, nos deparamos com algum homem que não se sinta "ameaçado" com a análoga inteligência feminina; ou o desconforto por estas não seguirem mais seus padrões de outrora quando o flerte era proveniente do homem no geral; ou seja, a mulher frente à seus desejos sexuais é sinônimo de "promiscuidade".
Ao meu ver, há muitos resquícios em todas as partes de machismo e autoritarismo por parte dos homens que ainda sufocam uma inconsciente tomada de atitude da mulher em seu real posicionamento no "estar aqui", no "vir a ser".
Podemos também citar o existencialismo, que de seu pressuposto da liberdade das nossas tomadas de atitudes mediante os estratagemas do "mundo" e "consciência" de estória de vida, a maioria das mulheres talvez sempre preferiram e preferem optar pelas "estórias" que foram e são precedentes de sua atual condição mediante a sociedade; ou seja, o "formato" daquilo que já conhecemos. Muitas outras vão preferir optar em dizer que "o inferno são os outros" também quando se mobilizarem em causa própria; mas mesmo neste parâmetro tanto o homem como a mulher não pode se dissociar um do outro, pois se "precisam" mutuamente para este "menu" de opções no qual na sociedade os outros são nossos "observadores" enquanto sujeitos.
Eu particularmente penso que a elas não foram dadas as oportunidades iguais à de um homem; seja no seio familiar, seja por processos de repetição de modelos impregnados, tanto em nível de "inconsciente coletivo".Em suma: uma matrix exclusivamente feminina. rs...rs..., ou uma alusão à alegoria da caverna de Platão na qual as mulheres não se apercebem de seus reais e melhores atributos; uma evolução de personalidade estagnada e de forma até equivocada se si mesmas.
Mas a realidade é esta e as idiossincrasias "colaterais" do sexo frágil estão aí.
Raramente a mulher foi citada no passado como uma filósofa, salvo algumas personalidades que passam desapercebidas até na historia da filosofia; que na maioria das vezes não tiveram um final feliz. Talvez se adotássemos o método desconstrutivista para esta analise poderíamos achar mais elementos; ou então perguntemos, se assim fosse possível, para "Simone de Beauvoir", Marilena Chauí (apesar desta ser muito tendenciosa) e Viviane Mosé; intelectuais que eu admiro muito.
Alguns outros dados para complementar minha postagem anterior; pois penso que aqui de fato a questão da mulher deva "transcender" pressupostos temporais, e creio que no Existencialismo isso é possível de se "realizar" ao menos no intento de questionamentos mais profundos.
Simone de Beauvoir influenciou muito Sartre e foi uma figura importante do Existencialismo. No entanto, talvez seja mais lembrada por sua influência no feminismo.
Seu livro seminal "O segundo sexo" iniciou uma nova onda de feminismo que também questionava a filosofia e sua incompreensão da natureza histórica e específica da opressão da mulher. De Sócrates a Sartre, a questão da mulher havia sido filosoficamente invisível. Isso era muito estranho, já que as mulheres pareciam constituir uma grande parte da humanidade. A pergunta "o que é uma mulher?" perturbava os filósofos.
Sartre acreditava na liberdade, a liberdade de tomar decisões, de dar "saltos" existenciais para o desconhecido. A pergunta de Simone em "O segundo sexo" era: como explicar a eterna opressão das mulheres se todo mundo tinha essa liberdade? Seria uma opção delas?(coadunando com minha postagem anterior) ou esse potencial de liberdade seria meio ilusório, especialmente para a mulher?
A filosofia pretendia ter respostas para tudo, mas nem sequer fizera a pergunta. Esse era realmente um problema importante que não acabaria.
Se a filosofia concebia a mulher como "outro" em relação ao homem, e, portanto, como subserviente, a própria filosofia estava deixando de conceituar as condições sob as quais operava. Estava tão cega quanto os homens na caverna de Platão.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Richard Dawkins contra a religião (Osvaldo)


De antemão digo que é interessante a idéia de trazer os céticos que estão na "berlinda" a um debate mais elucidativo acerca da razão de adotarem esta posição, tendo bases sólidas para também argumentarem em seu favor mediante o fundamentalismo religioso e proselitismos.

"Ele também defende e divulga correntes como o ateísmo, ceticismo e humanismo. Também é um entusiasta do movimento bright e, como comentador de ciência, religião e política, um dos maiores intelectuais conhecidos no mundo. Esses assuntos são devidamente retratados em seu mais recente livro, "Deus, um delírio", livro que já é best-seller em vários partes do mundo. Através de diversos fatos científicos, Dawkins nos mostra sua idéia da inexistência de Deus. Em enquete realizada pela revista Prospect em 2005, sobre os maiores intelectuais da atualidade, Richard Dawkins ficou com a terceira posição, atrás somente de Umberto Eco e Noam Chomsky"

Bem, penso que muitos estão um pouco "enfadados" e tolhidos com essa conversa fundamentalista religiosa e metafísica. Acho que o ponto crítico do livro é a questão do fundamentalismo religioso, pois Dawkins mesmo alega não poder provar veementemente a inexistência de Deus, mas também tenta inculcar o porque de acreditar; em que bases? Como pode ser racional alguém atribuir a uma criança em formação uma religião? Que arbitrariedade seria esta? E quem decretou que no ensino fundamental deva haver religião?
Este é um campo que não deve haver uma moral estabelecida para julgar as atitudes de Dawkins; é mais do que estabelecer se existe um deus ou não; é comportamental.
Claro que o oposto pode ocorrer, isso também se tornar um fundamentalismo, mas será? Não seria interessante ver até onde vai isto ao menos?
Não creio também que se esteja ofendendo culturas alheias; desculpe, mas desde quando "religião" é simplesmente cultura?
Muitas pessoas que conheço afora já relataram as idiossincrasias e ações deletérias de toda sorte provenientes desta moral e muletas de estupidez humana que teoricamente alegam o "bem estar" de todos; e todos nós sabemos da sujeira social herdada ao longo da historia ao brado de um deus insipiente.
A única forma que se assemelha de um conceito muito respeitável de ação não intolerante é a do "budismo", e este para os que realmente conhecem o sentido desta filosofia.
Da mesma forma que debatemos muitas proposições filosóficas aqui, creio que um ateu deva ter a sua para sustentar de fato se é um ou não. Porque não refutar os "superastros" das grandes massas? Pode até soar a tentativa de uma "metodologia" esta de Dawkins.
Não obstante, quem lê Dawkins estaria se interessando também por outras coisas além de conceitos ateístas, como por exemplo, a própria ciência e o humanismo; paradoxalmente possa isto parecer.
Especular se isto ou aquilo não daria certo antes do tempo não seria uma prova cabível.
Porque será que falar de deus aos ateus incógnitos é o mesmo tabu que falar de sexo para outros tantos?
Vocês sabem em qual proporção os evangélicos, estes mais lunáticos, crescem tanto quanto outros movimentos místicos? Será mesmo que Deus está morto? Acho que nem tanto, foi apenas reinventado.
Pois bem, se a morte de Deus se resume também na pós-modernidade, que tenham os ateus sua voz ativa ao menos; já que o quadro está estabelecido e ninguém viverá além das elucubrações contrarias a isto.
Tomando o exemplo de Dawkins, ainda penso que se dá a impressão de tratados filosóficos serem "self-centered" somente. Seria muito mais interessante ver talvez um filósofo sair de seu estado "autofágico" e dar um brado que fosse contrário a tanta imbecilidade editorial, ao invés de professar suas filosofias para determinadas "castas" somente; elucidando de forma "inteligível" às massas um teor de "lúdica" crítica elementar.
O que talvez falte a Dawkins seja um argumento menos dialético e mais lógico em suas refutações.
Muitos são adepto da "martelada" inicial, e isto não necessariamente quer dizer que quero ver o circo pegar fogo ou qualquer outra apologia que o justifique.

sábado, 28 de novembro de 2009

O poder ilusório da auto-ajuda (Osvaldo)


Vejam por si mesmos aonde chegou a sociedade de modo geral e suas preferências literárias.
Na capa da revista Veja de 2/12/2009 logo se faz a advertência: "não adianta torcer o nariz!"
O que devem estar imaginando os filósofos ao lerem esta matéria?
Creio que dá para acessar o site da revista para ver a matéria na íntegra. Eu nem a li direito, me recusei; mas li nas duas escassas paginas finais o hediondo: " A prima rica da autoajuda é a filosofia. AMBAS se propõem a compreender e interpretar a existência humana, a diferença é que a filosofia vai fundo na definição de conceitos, e nem sempre tira lições práticas de suas conclusões". Depois citam o epicurismo e Sêneca.
Para finalizar citam algumas frases clássicas de alguns pensadores como Spinoza, Montaigne, e outros; com uma alusão final de se pensar na "vida" e esquecer a morte.
Nota-se uma clara concepção de valores opióides que lhes proporcionam o torpor da felicidade momentânea.
Pasmem, onde está Schopenhauer, Nietzsche e tantos outros?
Schopenhauer vaticinou que o futuro da literatura seria a banalização, as ditas "literatices"; termo criado por ele; e que a quantidade de escritores ruins vive somente da tolice do publico.
Aqui fica uma reflexão consoladora de minha parte: a sociedade não ousaria ouvir a verdade; a de que ela aperta cada vez mais a corda no pescoço!
Como isso lembra a morte de deus não?
E a revista, não importa qual fosse, faz um desprezo à filosofia, e nota-se que ela coloca apenas um "momento", uma frase, de um pensador como Spinoza, por exemplo.
Com mil diabos; como um pensador como Spinoza, talvez o mais indicado para uma baliza mediante esta matéria, pode ser citado apenas como um "axioma"?
Troca-se toda a sorte de filosofar por um padreco pop star e seus receituários, outro que pesca nas "sagradas escrituras" versículos mirabolantes, e outro que se afirma no capitalismo empresarial com um nome muito sugestivo para as presas fáceis: "O monge e o executivo".
Isto é o que se chama de niilismo.


Para explicar isto também, segue um texto de quem vaticinou mais de um século atrás este advento literário, Arthur Schopenhauer:

"Parece premonição. Quando o filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) escreveu os três textos que compõem o livro Sobre o ofício do escritor (Martins Fontes, 222 págs., R$ 21,50) – originalmente para a obra de pequenos ensaios intitulada Parerga e paralipomena, lançada em 1851 –, não poderia supor que seus fundamentos seriam tão verdadeiros num futuro distante. O livro é um prognóstico de tragédia na área das letras. Deixemos de lado a parte em que fala dos problemas da língua alemã, pela especificidade que não é de interesse geral, para centrar nas críticas aos escritores, estilos e vícios. Parece que ele adivinhava que o futuro da literatura seria a banalização – basta ver entre os milhares de títulos lançados diariamente quais realmente merecem ser lidos. Feitas as contas, o resultado é pequeno.
Mas a responsabilidade pela proliferação de obras ruins é repartida com o leitor: “Uma grande quantidade de escritores ruins vive somente da tolice do público”, diz. Schopenhauer chama de literatice – termo certamente criado por ele e que significa literatura chata – “cerca de nove décimos de todos os livros”. E diz o motivo: os autores são “cabeças ocas que querem socorrer seus bolsos vazios”. Ele condena quem escreve para alcançar a fama ou, pior, para ganhar dinheiro. Só se deveria escrever por amor ao assunto, ensina. Não viveu o suficiente para conhecer o marketing, mas pediu que a literatura fosse avaliada apenas pelo pensamento original, e não pela capa ou presepada em volta. Bate pesado nas interpretações e compilações. “Só quem tira diretamente da própria cabeça a matéria do que escreve é digno de ser lido”, afirma. Considera que “os que pensam” são exceções e “no mundo inteiro, a regra é a canalha”. Ou seja, os que se apropriam de reflexões alheias e reproduzem idéias como se faz com “moldes de gesso”.
Schopenhauer afirma que não existe nada mais fácil do que escrever difícil, e que este é um recurso que visa ao logro. A exibição de erudição pomposa, estilo prolixo e palavras que ninguém entende é, na verdade, uma forma de o autor reconhecer que não merece ser entendido e que seu pensamento não é significativo. Dizem que a filosofia está na moda no Brasil atualmente e que os filósofos estão sendo procurados em livrarias. Ok, essa onda pode nos redimir da saga que ele critica em seu livro. “Há gente que lê mais sobre o que foi escrito a respeito de Goethe do que por Goethe e estuda com mais diligência a lenda de Fausto do que o próprio Fausto.” É aconselhável ler Schopenhauer por ele próprio".