terça-feira, 17 de agosto de 2010

Dos fundamentos de Platão, da razão e pré-socráticos - Osvaldo


Penso que é interessante salientar que independente de visões "pessoais" como o ceticismo, materialismo, idealismo, racionalismo, ou até mesmo o empirismo, ou outra posição filosófica pertinente a cada um de nós e que foram desdobradas ao longo dos séculos,estas questões do conhecimento, da "gnose", da epistemologia, são obliteradas em muitos compêndios da filosofia contemporânea que execram as proposições metafísicas que, a saber, tentam dar sustento para as teorias que contrapõem o ceticismo filosófico ou o relativismo infundado, então de fato este é um pilar muito sólido para a ciência filosófica enquanto indagação de tudo.Quando não muito, penso que tal síntese, a partir de Parmênides e de Heráclito, são úteis para apagar as chamas do "edifício" do conhecimento em seu "não entendimento".
Penso que de fato Heráclito e Parmênides, grosso modo, encabeçam estas questões que renasceram na filosofia moderna, tendo perpassado inclusive Platão, este que por sua vez mais se preocupou com a questão do conhecimento que, por assim dizer, se inicia com ambos pré-socráticos, e que deixaram certos "problemas teóricos" a serem resolvidos, os quais não eram ingressos na dialética Socrática dada a natureza "peculiar" deste filosofar.
Claro que em uma primeira postagem como esta não poderei discorrer de forma concisa acerca de alguns desdobramentos abrangentes, mas de início e em uma primeira instância, se faz mister mencionar que para Platão, as questões deixadas por Parmênides e Heráclito podem ser juntadas com as dos sofistas e seus peculiares relativismos que detonavam outra "dor de cabeça" para a filosofia. Questão esta também retomada na filosofia moderna.
Aqui minha intenção é apenas salientar a importância da historia da filosofia e os verdadeiros cernes do conhecimento, postulados hoje como "passado", portanto não é intenção minha sair inteiramente do contexto antigo.
Bem, a princípio penso que Platão via em Heráclito uma "certeza", ou no mínimo uma indagação, no que diz respeito ao mundo sensível, da instabilidade e mobilidade,o "devir",ao passo que em Parmênides, Platão faz correspondência com o mundo das idéias, o inteligível, cuja característica é a imutabilidade e estabilidade. Decorrendo disto, penso que Platão faz uma tentativa de "sintetizar" os dois pré-socráticos.
Penso que é de conhecimento de todos que Platão concebe a existência do mundo metafísico das idéias, e esta divisão metafísica da realidade esta na alegoria da caverna, divisão entre o mundo inteligível e o mundo sensível, que inextricavelmente está atrelado às proposições de Heráclito e Parmênides, isto é, do transitório e do imutável.
De fato Heráclito, a meu ver, abre uma tremenda brecha para o relativismo.
Penso que o nada seja, a princípio, ausência de alguma coisa, ou aos nossos sentidos que capturam a realidade como se apresenta. As formas dicotômicas do ser e não ser, e este assunto foi recobrado posteriormente, em Platão e outros filósofos da modernidade, como Descartes, Locke, Hume e Kant, que se preocuparam veementemente com as questões do conhecimento, ou seja, seria este "conhecimento" somente apriorístico, isto é, como é dado de acordo com nossos sentidos, ou ele seria de forma inteligível? Ou uma mescla de ambos?
Parmênides foi o primeiro a pensar que o mundo percebido por nossos sentidos é um mundo de ilusão, aparências (e não há nada aqui de debates com as filosofias orientais). Ele também contrapôs a proposição de mutabilidade, isto é, a aparência sensível das coisas da natureza não possui a realidade (isto nos remete a Platão).
Sendo Parmênides o primeiro a contrapor o ser ao não ser, e o não ser que não é, fica claro, assim penso, que o racionalismo começa a tomar grande fôlego, e posteriormente algo análogo à isto é feito no projeto de Descartes, ou seja, ele assegurou a veracidade e integridade do mundo lá fora com o argumento ontológico para a existência de Deus, que asseguraria idéias eternas e inatas, as "reminiscências" de Platão (estas não são mutáveis), advindas da razão, como a exemplo da matemática, imutável, inteligível, entes que "são"!
Penso que as premissas distintas entre Parmênides e Heráclito estão, a priori, bem sintetizadas, tendo em vista suas linhas mestras e axiomáticas.
No que tange respectivas contribuições ao desdobramento filosófico no que concerne a posteridade de ambos, é característico os fundamentos da filosofia de Platão tendo como base as premissas anteriores destes que forma pilares da filosofia grega, transpassando o período clássico, helênico, medieval, até nossa contemporaneidade, em especial ao fato das proposições que se desdobraram em ontologia, metafísica e, arrisco dizer, uma leitura “antropológica” dados os “vieses cognitivos” de conceitos vistos anteriormente em Parmênides, que indiretamente são abordados nos vieses sofistas, mas obviamente penso que estes últimos não beberam daquela fonte, mas sim haveria um “precedente”.
A saber, Platão deveria, assim como Kant posteriormente o fez em seu idealismo e critica da razão, estabilizar este incêndio provocado por vieses distintos dos dois pré-socráticos. Pois é sabido que Platão não tolerava os argumentos de tal “relatividade” ou perene transformação do conhecimento , que culminaria impreterivelmente em um ceticismo endêmico.
Para Platão o devir só poderia estar situado no mundo sensível, das aparências, enquanto que a perene idéia das coisas permanentes, me perdoem a redundância, só poderia se situar com a inteligibilidade do mundo das idéias perfeitas e que, de acordo com nossa apostila, fundiria o que chamaríamos de metafísica.
Assim sendo, se Platão hoje é denominado como “príncipe” da filosofia, este também teve, além das contribuições da dialética ascendente de Sócrates, pilares sólidos para fundamentar sua filosofia, advindos dos pré-socráticos, que também isto faz se figurar uma dialética da própria historia da filosofia.

domingo, 1 de agosto de 2010

Da razão lógica e metafísica- Osvaldo


Em principio de conversa, se realmente acreditássemos no caos, estaríamos loucos.
Toda forma de “ordenação” à sua volta, incluindo sua própria vida, é nata de uma “ordem”, mesmo que inconsciente.
Como lhe disse, o caos pode ser social e não acerca do “sentido” das coisas. A forma como o homem interpreta seu “arredor”, dentro de uma subjetividade, é díspar do outro homem, mas há certezas impares que norteiam argumentos contra o sentido “caótico” das coisas como elas são.
Há um bom filme para você assistir que se chama “Quem somos nós”, uma releitura que aborda ciência, metafísica, física quântica e energia perene em nosso universo, e para o observador mais atento às sutilezas, verá que por detrás desta “metafísica” há de fato uma ordenação em nosso universo que apenas foge aos olhos do ser humano, desde o macro, até o micro das partículas subatômicas.
Como lhe havia dito anteriormente, o homem, nós observadores, não temos noção da complexidade de tudo que nos cerca, percebemos apenas fragmentos de uma realidade que múltipla, de certa forma “desorganizada ou caótica”, mas que se contém em si.
O problema do niilismo é, a renúncia à sociedade hedonista, ou meramente um ressentimento pela vida, poderia melhor simplificar esta questão como a “filosofia do avestruz”, que simplesmente enfia a cabeça no buraco na terra como se “apaziguasse” toda confluência contraditória externa a si mesmo, mas isto seria também uma ilusão aos fatos evidentes em nossas vidas.
Alguém se qualificar isto ou aquilo, em minha opinião, mesmo sendo esta qualificação de desordem, ordem, acaso, determinismo, inatismo, empirismo, caos, ainda apela para uma abordagem peculiar mediante a vida, mas não passa de uma mera abordagem acerca do desconhecimento de si mesmo e de tudo.
O fato de não podermos conceber o incognoscível por uma questão de “intangibilidade empírica” não pressupõe que, embora seja algo árduo de se realizar, que devemos conceber em contrapartida um argumento de ceticismo acerca da irracionalidade do “ser-no-mundo”, como figurava existencialistas como Heidegger, Camus ou Sartre, isto é, em ultima instância, é uma proposição que atendia e sempre atendeu a diversidade subjetiva do ser humano, tanto quanto outras proposições filosóficas, dentre outras que abrem um leque maior de possibilidades de indagações como a metafísica, e que não se encerram em um irracionalismo perene acerca das coisas ou mesmo não comungam com o fato pertinente do irracionalismo de que as coisas sejam tidas como elas simplesmente se apresentam, mesmo porque a partir deste pressuposto materialista, como muitos filósofos da contemporaneidade apregoam, nada é oferecido como propostas na maioria das vezes, mas tão somente o diagnostico idiossincrático da ação do homem.
Nas confluências de valores múltiplos existentes por aí afora, é natural que isto esteja inserido em uma questão de relativismo, que hoje é levado à extrema concepção de valores que atendem à exclusividade subjetiva, ora do senso comum, da banalização, ora das “leis” autônomas que quem as professam, mas de forma um tanto quanto inexorável em sociedade, nunca um valor “próprio” ou pensamento próprio serão aqueles diferentes do que já existem lá fora, pois como em uma interconectividade de uma malha, bem explicado por Jung, pensamos quase que de forma coletiva, e nada originalmente.
Sartre, em sua obra “ O existencialismo é um humanismo”, deixou claro que o simples fato da existência preceder a essência, ou seja, não há uma causa anterior à nossa, nem deidades nem Deus único, e portanto o homem deve se criar a cada dia mediante o “absurdo” , segundo Camus, ou do “Nada”, segundo ele mesmo, e que como somos uma “malha” de seres que validam a existência através do observador e observado, ou seja, o outrem, há ainda nisto tudo um elemento de humanismo, que é uma tênue linha entre a total desordem do ceticismo caótico e da organização social, grosso modo.
Em ultima analise, poderemos então citar a irracionalidade de Schopenhauer, com sua metafísica da vontade, sendo esta a “aniquiladora” do próprio homem num desejo irracional de destruir a si própria também, salvo o desejo de perpetuar-se. Convenhamos que o velho Schopenhauer muito contribuiu para o desenvolvimento de muitas outras filosofias, em especial o resgate de algumas questões orientais como “ilusão” e também sua obra singular “A metafísica do Belo”. Mas em contrapartida Schopenhauer foi também um estopim, salvo Nietzsche e Freud, para o ressentimento de outras filosofias, sem juízo de valores algum aqui ao fato de eu expor este comentário.
Posto isto, penso que apenas algumas “verdades” podem ser postas à mesa desta discussão, que são as fabulosas e incognoscíveis formas de nosso cosmos, tanto quanto da natureza das coisas e a do próprio homem, bem mais do que a simples “morosidade” intelectual da distinção entre o metafísico e o operacional concreto de uma razão despótica e escrava de si mesma ao esquadrinhar a existência como “irracional”. Fato este muito moderno e contemporâneo, inseridos em uma primazia dos sentidos que, como bem sabemos, nos enganam.
De fato o homem cria para si próprio as mais nefastas mazelas que o atormentam, sendo ele seu próprio carrasco, criando e impondo seus próprios medos aos demais como a si mesmo.
A meu ver, mediante a perfeição deste sistema no qual me permite o “assombro filosófico” , a única disparidade está calçada na sociedade humana. Ao mesmo tempo em que eu ou você desejamos nos livrar destas pilherias pueris, também não queremos, e para tal fomentamos teorias de escape para aquilo que nosso cérebro ainda não consegue conceber minimamente, pelo escasso estágio atual de nosso processamento cerebral e má vontade.
Mas em ultima análise, o bom conselho que dou é não se aprofundar em questões existências se isto tudo o levar a um caminho sem volta. Talvez o grande primado da filosofia seria separarmos o bom senso do senso comum, e minimizar o relativismo extremo imposto pela razão e da falsa idéia de livre arbítrio, pois como disse anteriormente, em termos de matéria nem esta estaria, em ultima análise, livre de uma subordinação que foge dos conceitos apriorísticos das ciências, como poderia ser diferente para um ser pensante imerso neste turbilhão de possibilidades infinitas?
Minhas únicas prerrogativas são acerca da não sacralização da razão lógica em detrimento das questões inatas, intuitivas, que acredito, cercadas pela sustentação de uma “apuração detalhada” do que realmente podemos nos basear, advinda de um processo “racional”, que é operação básica do ser humano, pois ele "pensa", assim como talvez lá bem na frente possamos cometer menos erros assombrosos oriundos de nossa precária operação mental e longe das crenças verdadeiras que são de fato deletérias frente ao nosso progresso.
Pensa-se em grande parte de forma errada, sei bem, e sei também que o raciocínio puramente lógico está inextricavelmente atrelado ao ceticismo, ou seja, nesta linearidade binária do pensamento, seja ele “comum” tanto quanto “erudito”, não prevalece nada além da tangibilidade de proposições que são tidas meramente como apriorísticas, ou seja, o homem já tem por certo questões, mesmo que científicas, de pressupostos não “a posteriori”, e isto está analogamente relacionado ao senso comum binário, pois se crê veementemente na tangibilidade das operações mentais,istoé, de seu conteúdo, de forma que um escrutínio por parte dos mais leigos acerca de fatos que englobam um “todo coeso” é descartado em beneficio da obstrução do intelecto.
Sendo assim há apenas uma “descrença” de processos levados a cabo também pela intuição humana, ou mesmo idéias inatas, que de fato estariam “guiando” nossos sentidos, de modo que bem conduzidos, ao tentar chegarmos mais próximos de uma “verdade” que não fosse banalmente relativizada, pois toda o conhecimento parte das idéias para as "coisas", principalmente acerca das questões quantitativas, bem mais do que as qualitativas. Tal procedimento pode ser também extendido para as outras áreas do saber, estas que são aseguradas pelo "bom senso", e nos guiam para o progresso humano.
A metafísica da subjetividade, advinda de um filósofo moderno e racionalista e que foi o estopim para estes temas da mente, deixa claro que o homem “não é um piloto em seu navio”, não é uma mente comandando um barco, mas um todo coeso, a dualidade corpo e mente é puramente metodológica, o mental não ocuparia espaço, e o não mental ocuparia espaço, temas semelhantes são abordados hoje em ramos filosóficos como a filosofia da mente ou mesmo em neurociência.
De modo algum o projeto de Descartes, mal compreendido tanto quanto os escritos de Nietzsche, ao pressupor que o Francês foi criador desta contemporânea “racionalidade” despótica e lógica, está relacionado ao ceticismo ou à banalização do saber. Poderia se culpar em enorme escala o relativismo extremado para a banalização do senso comum, coisa que pode ser varrida pelo iluminismo da razão bem direcionada.
Deve-se de fato aqui citar a filosofia moderna cartesiana como precursora desta discussão, pois como bem sabemos quase todas as ciências advêm da filosofia, e o projeto cartesiano, ao menos no campo filosófico estrito, isto é, metafísico, não era o de “entender o homem”. No campo metafísico seu projeto era o de mostrar a inconsistência de posições relativistas e, enfim, céticas. Um projeto daquele que o próprio Platão se fez porta-voz, depois de Parmênides e Heráclito: o de encontrar e bloquear mecanismos pelos quais nós nos enganamos e tomamos o falso pelo verdadeiro.
Assim, o projeto cartesiano é no âmbito da verdade. Mas, a partir dele, e incentivado por ele, as pesquisas filosóficas não serão somente sobre a verdade, mas também sobre o “eu”. A certeza é alguma coisa do âmbito subjetivo, e o trabalho dos filósofos será o de mostrar que o “eu” que apresentam é universal e, ao mesmo tempo, não uma figura estranha aos homens.
A saber, o senso comum foi algo tido como pioneiro pelos sofistas, e se para mim eu sou a medida de todas as coisas, eu também então poderei não ser a medida de todas as coisas, em um raciocínio binário, mas o primeiro argumento é o que de fato prevalece neste emaranhado de relativismos pueris, nos quais a banalização do sujeito tanto quanto do conceito de verdade foram engendrados.
Em última instância, é natural dos homens complicarem aquilo que é tão simples, uma alusão aqui à "Navalha de Occan", só que desta vez não em um contexto de ceticismo ou reducionismo.

domingo, 11 de julho de 2010

Uma visão acerca de Platão - Osvaldo


Se percebermos bem, alguns “espíritos” com embasamento filosófico mais aprofundado, distanciado do senso comum, perceberão que o ideal de uma sociedade diversa, e analogamente diversa do estado de consciência evolutiva do ser humano atual, se dá no imaginário, dada a incapacidade do homem de perpretar algo “coeso” e embasado em premissas humanísticas que englobem em seu bojo todos sem exceção.
Posso, penso eu, aqui também citar Kant no que tange a incognoscibilidade da “coisa-em-si”, este que foi um dos últimos metafísicos da era moderna a discorrer em sua proposição, acima de tudo, a “limitação” do conhecimento humano. Se assim é, não creio que a proposição platônica seja de todo fora de uma interpretação das “causas finais”, ou ao menos no que concerne aquilo em que se situa nos ângulos desfocados do ser humano e sua inaptidão a se esforçar em ser melhor. Não obstante, tampouco as filosofias contemporâneas possuem algo a propor além de um diagnóstico de nossas idiossincrasias sociais.
Em uma antítese às questões metafísicas “supra-sensíveis” que propõem muitas filosofias, nos deparamos com aquelas que igualmente as “escatologias”, nos remetem a um niilismo ressentido advindas do ceticismo filosófico perene. Naturalmente temos como síntese disto a exacerbação da inexorabilidade do “relativismo” absoluto, o qual não encontra um balizador inicial nem para nos livrarmos do mau uso da razão, esta que é tão “vivificada” hoje em dia e que nos remete novamente à “touca de pensar” de Kant, talvez aqui o homem usando uma “pseudo-razão” e minimamente tendo ciência dos “filtros” kantianos e sua metafísica , unindo as escolas do racionalismo Frances de Descartes e o empirismo Britânico de David Hume, tentativa que pretendia dar um “basta” nesta guerra acerca do “conhecimento” humano.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Do mau uso da razão - Osvaldo


Aqui encontramos vários argumentos contra o “projeto racionalista”, e gostaria de salientar que o próprio termo “racionalismo” se perde ao longo do tempo com o embasamento apenas do “operacional-concreto”, que se diga de passagem não é a causa primeira do movimento da razão.
Podemos nos portar ao período socrático no que concerne os primeiros ensaios dialéticos de uma época pós “cosmocentrista”, voltando-se ao homem mais do que as causas primeiras ou finais. Mesmo em Platão ou Aristóteles temos argumentos que viabilizam o bom uso da razão, e daí, em Teeteto, já encontramos as primeiras evidencias de um problema de ordem epistemológica, do acesso ao conhecimento das coisas, que era diametralmente oposto aos argumentos dos sofistas, como é do saber de todos.
Vamos dividir aqui as filosofias e usar de certo “silogismo” imbuído neste parecer: em termos de conhecimento, sabe-se, de acordo com os primeiros estudos antropológicos em sua devida época, que os ocidentais estavam “atrasados” tanto em pressupostos científicos como sociais, e que os pré socráticos beberam da fonte de algumas regiões asiáticas para a formulação dos primeiros pensamentos fora do escopo mítico da antiga Grécia, fato este alardeado por Nietzsche ao culpar Sócrates pela indução da filosofia “racionalista”, mas como filosofia é algo a ser estudado de forma profunda, veremos que Platão e Aristóteles nem foram tão racionais assim, como em uma tentativa de unir a metafísica com a ciência e os costumes sociais. Na época, os sofistas foram os primeiros a dar os indícios de “pragmatismo”, “utilitarismo”, “hedonismo” e “materialismo”, sobremaneira por parte daqueles que eram os “maus” sofistas, que a saber, não possuía uma ética advinda dos grandes mestres sofistas, diferenciando de Sócrates apenas no quesito “pagamento”.
Muito bem, é preciso ser de certa forma “circular” para irmos mais adiante.
Como todos sabem, com advento cristão, unido ao neoplatonismo de Plotino, surgem as primeiras igrejas, o resto é história, de modo que a patrística era totalmente atrelado ao platonismo, de uma forma que lhe convinha, obviamente, recheada de elementos que nem Platão conhecia, e logo mais, na escolástica, Aquino tentou fazer algo melhor, atribuindo a fé com a filosofia de Aristóteles, de modo que toda a ciência fosse advinda do teocentrismo como o próprio misticismo fosse dado com um respaldo “racional”.
Oras, é sabido que Bacon, Galileu, e outros deram os primeiros passos ao movimento chamado empirismo, como até hoje se baseia nossa ciência, e que através da razão ,e não de um poder dito “atemporal” da igreja, deveríamos conduzir nossas “verdades” e descobertas.
Resumindo este período, que faz alusão à Grécia antiga nos termos de real “conhecimento”, começava a aflorar certo “ceticismo” filosófico, que mais tarde fora endossado por David Hume. Mas certo sujeito chamado Descartes, que também é de certa forma mal interpretado, tem a oportunidade de viajar por lugares diferentes e constatar que costumes são diferentes em vários lugares, culturas e crenças eram constituintes de peculiaridades diversas dada certa região. Descartes propôs então, em suma, o maior dos ceticismos dos ceticismos em sua duvida hiperbólica, duvidando do conhecimento, de si mesmo, do mundo afora, e inclusive de Deus. Mas em seu “cogito” ele descobre que ciência e conhecimento também se dão por “dedução” e não somente por “indução” (mais tarde aprimorado por Kant), mas o melhor disto é sua tentativa de “limpeza” daquilo que é tido como senso comum, através da confusão, demolição e reconstrução, e para tal ele desenvolve uma metodologia.
Diria que a razão hoje é pouco lapidada, como diria Aristóteles, o homem é um caniço pensante.
Da razão não podemos escapar, do fato de sermos pensantes, jamais. O erro da filosofia ocidental, muito diversa das orientais, é o fato do homem sempre estar procurando uma confluência de forças externas a ele mesmo, se nossas condições atuais de sobrevivência se encontram de formas repletas de idiossincrasias, é pelo fato do próprio homem assim querer, e pelo fato de tantos “compartimentos” criados por nos mesmos em ciência, sociologia, política, religiões, e psicologia. A única forma “racional” que possuímos de conceber as coisas é “kantiana”, ou seja, categorizadas ao extremo, como se fossemos desmembrados numa alucinante tentativa hercúlea de nos recompormos em integridade novamente.
No que tange os grandes racionalistas, me simpatizo com as proposições de Descartes e Espinosa, este último sintetizou de forma singular as causas do sofrimento humano a partir do momento em que este passa a obliterar os indícios da própria natureza de forma que esta “desunião” passa a proporcionar sofrimento, e isto de certa forma corrobora com Nietzsche quando diz que perdemos o bom lado “dionisíaco” com a supremacia da razão em favor do “apolíneo”. Mas talvez o bigode também estava errado ao criticar Sócrates, pois parafraseando a dialética histórica, é natural ao homem cada vez mais “ciência” de si mesmo, e isto novamente só é dado pelo uso da razão, e voltando novamente ao bigode, este niilismo só pode esgotar por si mesmo, como em um ciclo natural de uma “virose”.
Vale ressaltar que se falamos em “projeto racionalista”, em filosofia nos remetemos aos grandes racionalistas, como Descartes , Espinosa e Leibniz, incluiria aqui Pascal. A saber, Descartes, em seu brilhante argumento ontológico, provou racionalmente a existência de Deus. Espinosa citou Deus ou natureza, e Pascal disse que o “coração” tem razoes que a própria razão desconhece. Estes filósofos talvez faziam parte ainda de uma leva que uniam, como no oriente longínquo, ciência com fé, natureza com Deus, sentimentos com razão. Mas como é peculiar da raça humana, dicotomias e polaridades são extremadas.
Este terreno árido é como a teoria do “cérebro em uma cuba”, ou da própria matrix, que nos remete novamente a Descartes, este que foi enfaticamente contra o ceticismo filosófico que faz com que neste terreno árido nada germine, a não ser ressentimentos contra a própria espécie e vida. O projeto de Descartes, este que influenciou veementemente Espinosa, tratou apenas do racionalismo enquanto a batalha do terceiro excluído, tanto que sua “ética” proposta era temporal, e não universal, tendo em vista o que depois passamos a compreender como “antropologia”. Mas ele também professava que a razão, após um processo de “refinamento”, poderia ser nosso farol neste turbilhão de vendavais ocidentais, no qual apenas seu bom uso poderia combater a massificação do relativismo radical, que desune a todos nas crenças do senso comum.
Percebo qual é o verdadeiro teor da crítica que concerne o dito “racionalismo”, que em outras palavras poderia ser citado como “reducionismo”. A saber, ou ao menos de acordo com uma visão um tanto quanto parcial em ralação à etimologia da palavra sendo citada e de acordo com um “teor” filosófico, dada sua origem, o que a principio a dúvida hiperbólica de Descartes, grosso modo, nos aponta em contrapartida ao sendo comum, é o combate às superstições e falácias, ou seja, o que seria de fato “perene”, em contraposição ao ceticismo empirista, em relação à algumas “verdades” a conduzir nossa razão, dado o fato de que somos constituídos de culturas diferentes tanto quanto “criações” diferenciadas ao longo de nossas vidas.
De certo Descartes tentou resgatar as questões “inatas” do raciocínio humano, em contraposição ao fato cético de nada podemos conhecer.
Embora nossa ciência seja calcada no empirismo, é evidente que as ciências “cosmológicas” atua com bases dedutivas ao tentarem explicar as teorias de causas finais, ou seja, através da “intuição”, apesar de muitos dizerem que isto nada tem de intuitivo, mas sim meramente o fato “kantiano” das categorizações de nossas mentes que viabilizam uma forma “pseudo-intuitiva” de fatores empíricos.
Oras, em se tratando de questões teóricas como das causas finais em cosmologia, ou mesmo da existência de Deus, é notório o fato em que de acordo com a observação humana, certas teorias, segundo o astrofísico Marcelo Gleiser em seu novo livro, seria impossível chegarmos a um consenso acerca destes assuntos de maior complexidade, como massa escura ou mesmo Deus. O que penso acerca disto é que há aqui, apenas separado por uma tênue linha, uma questão de “fé”, mesmo por parte dos cientistas ao lidar com certas teorias.
Concordo com o fato em que, ao menos no que tange o pensamento ocidental e da própria filosofia “contemporânea”, e não a “moderna”, é que no advento “racional-puramente-cientifico” fomos reduzidos a meras maquinas de pensar, com as explanações “químico-biologicas-mecanicistas” de nosso ser, que em comunhão com o próprio reducionismo ontológico da “ontologia”, fez com que o homem se “compartimentalizasse” cada vez mais em seguimentos díspares, a partir disto, desta “perda” do sentido holístico do ser tão amplamente discutido no oriente, o homem vê a necessidade de criar as ciências psicológicas, como bem sabidas após Schopenhauer e Nietzsche.
Querendo ainda mergulhar mais fundo na questão, não haveria aqui algo de "endêmico" em algumas criticas no que concerne a "razão" pela própria razão...ou seja, destituindo os clássicos argumentos racionais desde Sócrates, o que poderíamos "colocar" no lugar?
Ao que me parece, tudo culmina em um sentido evolutivo do próprio homem, sendo este ou não dotado do "bom uso” da razão ou o que ela de fato significaria hoje, pois desde as formas primitivas do ser humano, quando o cérebro ainda não tinha toda sua formação atual, me parece que Darwin não se exclui disto em suas teorias tampouco.
Penso que a grande questão é de fato social, humana, idiossincraticamente gerada pelo próprio homem com suas façanhas pueris.
Jung faz uma longa explanação acerca da “sombra” individual, analogamente à coletiva, geradas por nós mesmos, e que talvez nenhum filosofo tenha incluído em seu bojo erudito.
Kant talvez tenha acertado em cheio no que diz respeito a “diversas formas de observações”, isto é uma própria observação minha acerca do autor também. Descartes já havia se identificado como talvez um filósofo “pluralistas”,antes do advento das ciências antropológicas,ao não ser inserido nos limites da filosofia continental, fato este que foi suscitado quando o próprio ingressou nas tropas de Mauricio de Nassau e passou a conhecer outras culturas e costumes, embora de forma um tanto quanto escassa, dado as dificuldades de transporte da época. Descartes foi o famoso filosofo “mascarado”, por não poder dizer de tudo que pensava naquela sociedade de seu tempo.
A única proposição, em filosofia clássica, de um iminente “caos” universal, incluindo das possibilidades de “conhecimento” humano, seria o ceticismo absoluto de David Hume, este que também quase avassala o método dedutivo tanto quanto o indutivo, formas bem conhecidas de como hoje praticamos a nossa ciência e investigação.
Posto isto, não me parece que é mera “ilusão de ótica”, ou o fato de concebermos tempo e espaço distorcidos e de forma linear, que uma regularidade e ordenação das coisas como são dadas no universo não existam. Caso contrário, apresento-lhes a teoria do cérebro em uma cuba, ou mesmo do gênio maligno de Descartes, antes de suas conclusões finais, para talvez reforçar o argumento “ilusório” a la Matrix no que concerne uma tangibilidade perniciosa ou falaciosa daquilo apreendido por nossas mentes.
Num argumento filosófico anti-ceticismo, penso que em se tratando de assuntos macro, estes são perenes e de forma inexoravel independentes de nossas observações que, no micro, se esvanecem no “lambuzar” deste novo doce que é o advento da razão que, junto com filósofos apenas “ocidentais” demais, se perdem ainda ao identificar erros, mas nada propor para a correção.
Tenho muito claro para mim que filosofia ainda é clássica, e que seus desdobramentos se converteram em áreas como sociologia, antropologia e psicologia, dentre outras.
Voltando para a razão, não vejo de que outra forma o homem poderia deixar de usar sua ferramenta “cerebral”, já que penso que “pensar” não é apenas um exercício da raça humana, mas também uma necessidade “inesgotável.
Uma ala mais radical da filosofia culparia os gregos desde Sócrates para esta atual culminação, mas o erro é inerente à espécie, e talvez errar não seja desumano a partir deste principio, pois os mesmos se esquecem de uma substancial diferenciação de culturas e relativismos, e que o ser humano foi compartimentalizado em “setores”, aí sim podemos culpar a idolatria da razão, que enaltece tanto o senso comum quanto as imbecilidades advindas do mau uso da própria, ou mesmo talvez para onde caminham os futuros desafios da filosofia, que talvez seja uma batalha homérica contra o patamar cientifico mais alto que fará que o ser humano se oblitere de sua própria condição humana frente a clonagens e outras tecnologias avançadas, ao brincar simplesmente de “criadores”.
A metafísica filosófica ocidental é o que o pensamento “integrado” é para o oriente, a primeira se dá numa tentativa “racional” de compreender a incognoscibilidade de tudo que nos rodeia, portanto ainda ela é meramente “metafísica”, ao passo que a segunda, inexoravelmente, se valida em seu argumento por uma metafísica perene, ou seja, da necessidade da existência de Deus, Buda, Krishna, ou Oxalá, por exemplo.
Penso que, dentro do escopo acima, não há uma divisão entre razão e fé para os ocidentais, nós já integramos isto na razão, ou se preferir, de forma institucionalizada, e poderíamos voltar até na “sombra coletiva” de Jung.
Mas o “mal” ainda sempre está relacionado às questões falaciosas, crendices, preconceitos, intolerâncias ou mesmo no argumento do terceiro excluído e redicionismo ontológico, e se fossemos apenas “deletar” isto da atualidade que vivemos, retrocederíamos a um ponto ainda da formação do homem e em que este não tinha o “assombro” mediante sua própria existência. Arrisco dizer que isto é latente, e não induzido, porém contornável, com muito esforço, mas contornável.
O argumento do ceticismo filosófico, que também tira os créditos da razão enquanto formas de conhecimento, também é falho, diria inclusive que é um contra-senso para as investigações ontológicas , que também se inserem na metafísica. Somente não façamos confusão entre Ceticismo clássico e ceticismo “metódico”, adotado por Descartes para Eliminar em sua época crenças infantilizadas ou mesmo as advindas do senso comum.
Usar bem a razão não é tão mal assim, talvez o homem fosse bem menos “caniço”, não fosse por suas emoções de resquícios primitivos, as quais ainda o fazem esquecer que a era da “sobrevivência” em si já passou, mas seus resquícios permanecem num córtex ainda a lapidar.
A lógica clássica ou a razão não fomenta as idiossincrasias sociais e psicológicas que encontrarmos hoje, pois na época dos gregos antigos nada se sabia de estudos do cérebro humano, ainda não existia Freud nem Jung, tampouco a neurociência.
A questão é que filosofia, a partir de pressupostos oriundos apenas de silogismo aristotélicos, de puro relativismo sofista, ou meramente de fundamentados da razão pura, obviamente não explica a contraparte de todo argumento outrora refutado, para tal adentramos nas questões de ordem epistemológicas, que é um verdadeiro edifício em chamas da filosofia.
A saber, as implicações céticas da filosofia empirista, em contrapartida ao projeto de Descartes ou de outros racionalistas como Espinosa ou Leibniz, também perde seu valor nas questões de neurociência, de modo que “intuição” e “mente” é ainda um assunto a ser escrutinado mediante os próprios solavancos da ciência ainda tida hoje como “empírica”.
Em se tratando de linguagem ,ou outra filosofia qualquer que se atenha apenas nas implicações deste nosso orbe e respectivos viventes em sociedade, é notório que há de se fazer uma releitura dos primeiros na Grécia antiga que assim o professavam, a saber, os sofistas. (não se lê aqui nada de pejorativo à distorção etimológica, tampouco juízo de valores).
Desta forma, hoje há o que se denomina filosofia voltada às origens, daquela que se inicia na tríade Sócrates, Platão e Aristóteles, num sentido amplo desta ciência, e veementemente praticado pelos dois últimos citados, tanto que hoje há um movimento para a “desbanalização” da metafísica, esta que é subjugada por muitos por se tratar de “fantasias” ou meramente “new age”. Equivoco total, e para tal deve-se entrar a fundo no “core” da questão.
Uma inversão de conceitos aqui também é possível, ou seja, salvo Nietsche, que apenas se “deduz” um ceticismo de sua parte acerca de assuntos pertinentes à “cosmologia”, pois este estava obviamente interessado com as idiossincrasias humanas em um circulo vicioso juntamente com a escolástica, todos os filósofos que perpetraram um ceticismo a mil ventos poderiam estar “ressentidos” com a falta de respostas para muitas indagações “insondáveis”, gerando- se desta forma o pessimismo filosófico, ou seja, há filosofias diversas para todos os gostos, mas assuntos pertinentes à metafísica, às causas primeiras e finais , ainda fazem parte de um escopo que poucos ousam volitar, em nome apenas de lógicas de linguagens ou de uma razão que é precoce, mal entrada na era do “homo sapiens”, diverso de outras épocas em que nosso aparelho cerebral tampouco tinha a formação atual.
A questão muda de forma quando aliamos filosofia e cosmologia, ou mesmo “astronomia”, por assim dizer, pelo fato de tantas teorias apriorísticas que tentam desvelar as “causas finais” .
Oras, vemos aqui ciência fazendo um papel metafísico, daquilo que ela própria não tem a capacidade tecnológica para “decifrar”, teorizando portanto em suposições a priori acerca do infinito, talvez um “sendo comum” dentre os cientistas, no que se refere este tópico.
O que quero dizer, portanto, é que certos assuntos não são passiveis de serem extinguidos através da “lógica” do homem, eles serão para sempre pertinentes enquanto houver seres pensantes.
Nietzsche explica a morte de Deus não de forma “ipsis litteris” , mas como um movimento engendrado pelo próprio homem à luz da razão, esta que ele também critica. Um movimento no qual um ser humano, ao invés de rezar para seu deus ou para seu santo para passar uma dor de cabeça, irá desta vez ao médico (mínimo exemplo), e que o hedonismo é o movimento atual que substitui Deus, mas em contrapartida, ao mesmo tempo em que o homem quer algo, ele não quer, ou seja, o ser humano no fundo tem medo do “incognoscível”, e isto, inexoravelmente, é algo “dedutível” e não ‘induzível”.Para quem pratica filosofia, e não é apenas um “admirador” de certas filosofias, ainda o “assombro” mediante sua própria natureza e da natureza externa, até o cosmos, faz parte integrante do bojo filosófico “in natura”, e não de seus apêndices como antropologia, sociologia ou mesmo psicologia, e por fim, a própria ciência.
Talvez sobre para os céticos filosóficos apenas o materialismo, algo que implica apenas nossas preocupações em sociedade, e em ultima instância o anarquismo filosófico, mas aí entraríamos em outra contradição, pois apenas na visão de David Hume o amanhã não é “assegurado”, mas esta proposição já dura muito tempo frente a bilhões de anos de um universo “sempre” ordenado. A “razão” nada pode esclarecer por definitivo. Embora em filosofia ainda prevaleça apenas os argumentos mais “plausíveis” , está fadada à metafísica e à epistemologia questões mais acaloradas, e filosofia propriamente dita não é nada sem estas áreas. Hoje, a razão tem suas próprias idiossincrasias, a saber, seu uso em prol do hedonismo desenfreado e da condição humana.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Do Ceticismo versus a metafísica - Osvaldo


Creio que o interessante são os correlatos que podemos fazer a partir disto, ou seja, voltando um pouco, se verifica que Sócrates está mais voltado a certo “nascimento” de um antropocentrismo, após a as filosofias que o precederam em seus antecessores, que buscavam como causa ultima a imanência de um substancia que fosse caracterizar toda a existência, seja ela a água, fogo, ar ou mesmo o “apeíron” (sem limites) de Anaximandro. Posto isto, os pré-socráticos ainda pairavam nas águas do cosmocentrismo e o do nascimento da física, estes sendo de certa forma posto de lado por Sócrates, que introduzia a “razão”, paralelamente aos sofistas, no cerne social e individual. Não obstante, Sócrates se preocupava com questões de ética, mesmo por racionalidade, diferentemente daqueles.
Nota-se que Platão, penso eu, ao falar de Sócrates por si mesmo, tenta congruir o nascimento da razão, com foco “ontológico”, ao espanto, ainda, das questões cosmológicas e do infinito, que por sua vez é novamente “refiltrado” por Aristóteles, este que é a base da teologia escolástica por ter em seu pressuposto metafísico algumas congruências com as sagradas escrituras, a exemplo da proposição do “motor imóvel” daquele, que por sua vez também “casa” de certa forma com a teoria evolucionista da espécie humana, enfim, isto tudo a grosso modo, pois o assunto é extenso e ainda em filosofia Platão e Aristóteles brigam, inclusive nos dias atuais, pelo titulo de príncipe do conhecimento.
O que vale salientar é que a filosofia antiga nunca esteve obliterada ou estanque, nunca pode ter sido considerada ultrapassada ou inútil. O que temos hoje são divisões no campo epistemológico da filosofia e as filosofias meramente de cunho ontológico, este último quase que se destacando de vez da metafísica para estudar apenas os fenômenos dados a priori, como no caso da fenomenologia e do existencialismo, ou mesmo do pragmatismo americano ou das escolas diversas, como a de Frankfurt, que o homem de fato é, dado a incognoscibilidade de todo restante, a primazia e o centro de estudo filosóficos, dentro de sua alteridade e facticidade, incluindo-se aí o social também e as políticas.
Oras, as questões metafísicas somente não instigam os céticos (em filosofia, não os ateus). De resto, só atrai para si os diversos questionamentos acerca de causas primeiras e causas finais, não em um escopo de causas finais no sentido escatológico, tampouco o da presunção da ciência em travar uma batalha contra a incognoscibilidade do unirverso e a não admissão de nossos recursos parvos para tal. Se fossemos tomar a questão cientifica acerca do desconhecido, poderíamos dizer que, tirando o absolutismo destes cientistas em especular tudo somente em bases apriorísticas somente, que estes são os maiores metafísicos existentes, no que tange o principio de todas as causas.
Não é a toa que a tríade Sócrates, Platão e Aristóteles deixou um legado que nos faz lembrá-los até a modernidade. Advindo destes, se “reinstala” a questão epistemológica na era moderna com descartes, contra o empirismo cético de David Hume, que são resultados de “tese” em Kant, este que por sua vez alude o agnosticismo.
Platão já era conhecido em questões do “conhecimento” em Teeteto, e assim como Sócrates, se preocupavam com o relativismo exacerbado dos sofistas, tal relativismo este que também, séculos depois, indaga Descartes e o impele a uma metafísica também, esta para sustentar que o ceticismo seria uma furada.
Bem, eu penso que metafísica é um campo que é inextricavelmente atrelado à filosofia, seja em que época estivermos, e a de Platão não é tão diferente da de Descartes, Espinosa, ou mesmo Kant, no sentido de conceber uma “ciência”.
Ou seja, no campo das proposições metafísicas, a “lógica” não pode determinar nada em absolutamente, certo ou errado. Mesmo Bertrand Russel, grande filósofo e matemático, se preocupou com o “cogito” de Descartes, este que por sua vez se preocupava com Aristóteles, que por sua vez se preocupava com Platão, que acendeu o estopim.
Para os adeptos do “ostracismo metafísico”, aqueles que não se incluem num ceticismo filosófico, restam remar no mar agnóstico de Kant ou nas marteladas demolidoras nietzschenianas, e para ser mais pontual neste sentido ainda, resta parafrasear a morte da filosofia pela boca de Marx. Afinal de contas, para a humanidade restam os ditames teocentristas, o ateísmo, ou o sofismo. E talvez a metafísica ainda seja uma pulga atrás da orelha deste enorme relativismo ao extremo. Moralismos à parte.
Na realidade o que é filosofia a não ser aquilo que aprendemos da boca dos outros, ou seja, Schopenhauer já nos alertava, embora em sua época, acerca da filosofia universitária, esta que estava sempre atrelada aos interesses do Estado voltando-se para um conceito “racional”, como em Hegel e outros românticos anteriores a este.
Na realidade vivemos sempre à sombra de filósofos ao invés de “pautarmos” nossas críticas também.
Estou neste instante relendo “Sobre a Filosofia Universitária”, de Schopenhauer, que a meu ver é um interessante tratado do real valor do filosofar. Claro que por detrás deste esboço jaz a metafísica da vontade do velho Schops, e de grande modo o fato de seu pessimismo coincidir com a “miséria” alemã e o desespero que toma conta da intelectualidade burguesa de sua época, pós hegeliana.
Há algo nesta obra de Schopenhauer que me chama a atenção no tocante ao papel “perene” da filosofia e do filosofo que engloba em sua função o sentido estrito da palavra filosofar, em amplo aspecto, e não somente em um, como no caso de somente aspectos sociais, ou epistemológicos, ou somente éticos ou estéticos. Ele cita no mesmo livro que no homem, a vontade se objetiva não só como corpo, mas como sujeito do conhecimento (aqui já temos uma refutação ao dualismo de Descartes, interessante isto!), o que possibilita que ela se conheça a si mesma e chegue à sua negação. Revelar o “significado moral do mundo” é a única e suprema tarefa do filósofo verdadeiro. Por isso ele não pode estar submetido a nenhum outro interesse que não seja da busca da verdade.
O interessante também é que enquanto estudantes da história da filosofia, podemos traçar uma linha “dialética”, a la Hegel, de nosso estado filosófico atual, e voltando agora a Platão e sua metafísica, com intertextualidades entre os principais filósofos da história, se encerrando em Nietzsche e no existencialismo provocado pelo mesmo, podemos observar que o homem pouco mudou. Como diária Nietzsche, qual de fato seria esta tênue linha que separa o homem moderno daquele homem primitivo? Em que de fato evoluímos desde a “arrancada” pós advento racional?
Muitos filósofos apenas tentam desdenhar o verdadeiro conceito da metafísica filosófica para se direcionarem apenas ao extremo “antropocentrismo”, mas se esquecem que este mesmo se torna uma força “centrípeta” que não sai de seu bojo tampouco, coisa que deveria ser bem diferente, pois aqui lidamos com argumentação empírica e fatos concretos, e não metafísicos, ou seja, na pior das hipóteses, irão dizer, como já foi dito em um niilismo amargo e passivo, diverso do “amor fati” nietzscheniano, que a raça humana é algo passível de obliteração.
Creio que não. Dentro do real escopo filosófico, nunca ficou mais evidente um olhar de volta às raízes, como que em Sócrates, Platão e Aristóteles, que englobam ainda as mesmas perguntas de sempre. E que alguns ousaram a continuar e outros simplesmente esqueceram.
Creio que estamos perdidos na nossa própria razão, esta que começou apenas a ser “lapidada” algumas dezenas de séculos atrás e, no entanto, se sustentar apenas nisto para esclarecermos os “balizadores” da humanidade, seria como retornar ao tempo em que se refutava o heliocentrismo de Copérnico.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Crítica à educação capitalista - Osvaldo


Os dados estatísticos de nossa educação espelham duas faces, a saber, alguns que tentam expor fatores de conveniência própria, provenientes das autoridades que encabeçam a educação, outros provêm da constatação “in loco” de quem realmente está de frente às presunções ilusórias da “profetização” da inexistência de fatores alarmantes acerca de nosso ensino.
Aqui não se trata de mera visão niilista, ou de um pessimismo contundente, mas sim da constatação imbricada dos desafios atuais do professor e do que estes podem de fato se assegurar para o pleno exercício de sua função, de modo a promover seus alunos em todos os aspectos de realizações que constam nos estudos sociológicos para a dignidade humana, e, não obstante, de modo que a escola possa de fato ser um pequeno “reduto” que espelha a realidade lá fora, e vice versa.
Pela supracitada afirmativa final, podemos inferir que um dos maiores desafios do educador está redobrado de responsabilidade perante seus alunos, ao que consta, do desenvolvimento, em sala de aula, de uma realidade social menos lúdica e mais “verídica”, análoga aos desafios propostos na sociedade como um todo, e do próprio papel do professor, que para além da transmissão de um conhecimento que visa à formação dos cidadãos engajados no sistema vigente, possa também propor novos desafios aos discentes, de maneira que estes não vejam sua contemporaneidade como causa final de inexorabilidade idiossincrática, mas sim de modelo a ser superado. Portanto, dentre as peças fundamentais deste mosaico, o professor é de fato aquela que ainda pode guiar o discernimento de seus discentes em relação aos caminhos propostos para a amenização das idiossincrasias sociais, que indubitavelmente reflete de maneira singular não somente na formação do individuo como também nas questões apriorísticas comportamentais, salvo os de ordem “biológicas” e “psicológicas”, que são reflexo de uma sociedade doente e que estão inextricavelmente atreladas ao fator disciplinar assim como o da evasão escolar, uma simbiose, uma circularidade, que somente sendo interrompida poderá permitir o afloramento dos ventos da concordância com o verdadeiro papel da escola.
Sabe-se hoje que nossas escolas estão aptas a ensinar de uma forma que atenda as demandas do capitalismo, e este, expressão máxima da desigualdade social, requer formas pragmáticas de inserção do ser humano em “campos” de trabalhos específicos, quase que obliterando totalmente as questões de dignidade humana, em prol de uma subliminar escravidão do saber e da anulação “exponencial” de todos os atributos engrandecedores humanos. Aqui uma “racionalidade” é somente usada em função da cooperação dos indivíduos para com o fomento do capitalismo.
Posto isto, as perspectivas da educação ainda se encontra na própria educação, isto é, da ressignificação de conceitos até então considerados como “motes” educacionais, paradigmas inquebrantáveis e coercitivos de um sistema social muito pouco humano. A capacitação do docente é imprescindível para que ele possa se direcionar para seus alunos de modo a abranger não somente as necessidades formativas de seus discentes, como também das informativas. Para tal, esta maximização do papel do docente carece de certas resoluções de caráter iminente, a saber, de se começar com a simbologia “conceitual” de sua nobre profissão e reconhecimento, que é a melhoria remuneração, capacitando-o a ministrar menos aulas e de maneira que ele possa focar “melhor” em apenas determinado número de classes, sendo que isto corroborará com o fato de não somente as aulas se transformarem em reais agentes de transformação, como também da geração de mais empregos para o setor educacional.
Das três principais escolas sociológicas, uma se faz “bem presente” no sentido da inserção do indivíduo em sua sociedade, ou seja, da escola como “provedora” da educação necessária para o encontro das demandas sociais vigentes, mas penso que uma escola sociológica em específico lida com as reais questões visionárias que jazem por detrás das sombras do capitalismo e dos dissabores que dele resultam. E este modelo é singularmente diferenciado, sempre atual e também faz parte integrante de muitos educadores quando o assunto é ensino versus Estado. A meu ver Marx, embora dito por muitos não se preocupar deveras com a educação, já desmantela todo o sistema vigente quando aponta as tempestes sociais que, de forma inexorável, vertem para a realidade escolar. Como causa ultima de soluções, e como educador, de certo comungo com esta visão que, como em uma árvore, aponta a suas raízes fracas e miúdas do capitalismo para o sustento de um humanismo de necessidades plurais, pois análogo à democracia, seu paradoxo é que as necessidades de muitos são esmagadas em função das necessidades de poucos.
Sabemos que a principal função social da escola é formar o indivíduo com bases no seu futuro exercício,e plenamente ciente, de sua cidadania, embora o que se tem como meta hoje é o “enquadramento” num dito círculo vicioso, digo, virtuoso, que como em uma cadeia alimentar, dada a imposição do sistema social vigente, o indivíduo nasce, aprende, produz, enriquece os outros, ganha muito pouco, paga os impostos brasileiros em cinco meses de serviço antes do ganho real, e este “ressentimento” generalizado gera violência, que por sua vez reflete na educação e na evasão escolar, mas que por sua vez leva o indivíduo ao submundo, e que por sua vez não aprecia a escola, e que consequentemente vai ser também explorado por trabalho escravo, “ad infinitum”.
Por fim, a escola ainda é a base, o pilar que sustenta toda predileção futura por uma sociedade mais justa e de equidade. É a instância primordial para aquisição do saber no desenvolvimento cognitivo do individuo, e para tal, disciplinas como sociologia e filosofia devem ser disponibilizadas em âmbito nacional, sem exceções, para que ao menos um elemento critico possa brotar por parte dos discentes e que isso de fato se torne um dia sinônimo de engajamento social de alunos e professores em prol da constituição de uma sociedade menos desigual e de precariedade educacional.

Crítica aos que desvalidam o homem racional - Osvaldo


O homem é o que é, ele não tem pecado original e tampouco “culpa originária”. O homem por natureza “isolada” de tratados deterministas pode perfeitamente fazer bom uso de sua razão para a solução de seus problemas. Muitas vezes eu mesmo me assombro mediante a crença que se pode ter acerca de um Deus “punitivo” ou rancoroso no tocante a sua própria criação. Vamos colocar então as coisas fora de um escopo teocêntrico e dogmático para então analisarmos esta questão sob um prisma “humanístico”.
Com a derrocada do advento cosmocentrista e teocentrista, o homem começa a ter noção de sua “razão operante” no advento do antropocentrismo, ou seja, todas nossas descobertas em ciência, medicina, engenharia, humanidades e outros, se dá a partir deste momento singular, o do uso da razão , que não necessariamente refuta a idéia de Deus, tampouco o antropocentrismo deixa de “comungar” com a idéia de um Ser infinito e de causas primeiras e finais.
O que apenas vale ressaltar é a forma em que a igreja medieval fez, de maneira sistemática, em atribuir a razão à fé, no período escolástico com Aquino, combinação esta que já estava por ruir mediante o uso “inapropriado” da razão para meramente suportar suas bases teológicas “dogmáticas” e de obediência nos primados racionais de Aristóteles. Este por sua vez, acabou também sendo subjugado por “emprestar”, após vários séculos, sua filosofia para a igreja cristã. Como resultado, a sã consciência diria que nenhum poder humano seria “atemporal” ou “divino”, bases estas que foram e são ainda demolidas pelo constante exercício filosófico, mas não pela teologia própria destas instituições que validam sua autoridade.
Falar do “transporte” destes pensamentos medievais ainda nos dias de hoje é uma tentativa muito improdutiva, assim como a areia escapa por entre nossos dedos, de avaliarmos e balizarmos os verdadeiros problemas do homem, que em suma ocorre pelo mau uso da razão e pela falta de instrução apropriada.
Existe um grande ressentimento dos religiosos e espiritualistas com os tempos modernos, em geral dos mais dogmáticos, em percorrer a modernidade de acordo com as novas nuanças e desafios dos seres humanos. Talvez a grande “sacada” da criação consiste em usar nossa razão da melhor maneira possível para que possa haver o diálogo que abranja as interdisciplinaridades dos seres humanos sem escatologias e nem exclusivismos.
Penso que os estóicos, voltando novamente ao passado,em se tratando de uma “ética de vida”, se configuram como os mais sensatos ao lidarem com questões pertinentes à conduta mediante o hedonismo e a vaidade humana, seja ela do materialista radical ou do espiritualista-religioso, e ainda eles conseguem um diálogo “interno” com o que chamam de harmonia cósmica.(O Estoicismo ainda se faz muito presente hoje como filosofia de vida para muitos).
Tudo se resume em conceitos, pré-conceitos, e crenças do senso comum, questões que a filosofia bem aplicada tem por finalidade demolir. E a partir disto nos centrarmos nos diálogos que venham de encontro com as reais necessidades sociais do homem, parafraseando a perfeição de todo o sistema universal, que pelo mau uso da razão, em muitos, ainda não se faz claro.
Penso então que os argumentos dogmáticos, seus vestígios atuais, assim como a tentativa de fundir razão com dogmas deterministas,estão fora da ousadia filosófica de quebra de paradigmas e vislumbre do novo.
Façamos o exercício socrático que diz: "Homem, antes de conhecer aos deuses e ao universo, conhece-te a ti mesmo".Talvez este tão procurado Deus esteja dentro e não fora. Isto seria um vislumbre apenas, pois nas tentativas de se "agarrar" Deus com as próprias mãos, desastrosamente o homem o faz de maneira antropormofizada, nos remetendo a Kant que diz que esta "possibilidade" é impossível. Mas ao contrário, segundo Descartes,o bom uso da razão pode, de maneira intuitiva, apreender a idéia de Deus, mas para tal, precisamos antes de tudo confundir tudo, desmoronar tudo, para enfim reconstruir o “novo”.