quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Da fragmentação dos saberes - Osvaldo


A questão proposta para análise é notoriamente complexa e profusa, e incita um debate amplo.
Gostaria de, em primeiro plano, discorrer acerca de como supostamente chegamos num patamar no qual o conhecimento atende as demandas comerciais e do poder social vigente.
Este assunto não poderia ser melhor tratado do que sob uma ótica crítica da filosofia em seu sentido estrito, que a saber, hoje trata ainda daqueles assuntos que não estão situados em campos já “categorizados” do conhecimento humano, por assim dizer.
Como é de nosso conhecimento, as ciências humanas advêm do escopo “unitário” que foi outrora a filosofia em um amplo sentido de pesquisas, fossem elas metafísicas, ontológicas, políticas ou sociais, assim como o conceito de sociologia ter ganho fôlego no positivismo de Auguste Comte, ou mesmo com Weber, Durkeihm ou Marx (este vaticinou o fim da filosofia).
Mas retrocedendo ainda mais na historia, verificamos que até a idade moderna os pensadores ainda detinham conhecimentos múltiplos, seja em ciência, astronomia, medicina e outros.
Os pré-socráticos como os da escola de Mileto, denominados como os primeiros físicos, caminhavam rumo ao que hoje se vê como fragmentos das ciências.
Penso que poderíamos dizer que hoje um dos maiores desafios da filosofia é ser “inspetora” das ciências.
Em um sistema capitalista, dado seu viés que está restrito às aquisições e influências, o conhecimento do mundo, de sua evolução e descobertas, está diretamente relacionado com uma forma aprioristicamente não ética, nos remetendo à subordinação dos retentores do conhecimento.
Penso que não podemos apenas culpar um sistema político para variar. A premissa de que o homem sofre eternamente com confluências externas a si mesmo apenas contribui ainda mais para que possíveis soluções viáveis para a “democratização” do conhecimento soem como utopia.
O conhecimento em seu sentido “egoístico”, ou materialmente mesquinho, ou ainda por disputa de poder e de maior conhecimento a esmo, apenas contribui para o insucesso das empreitadas contra a atuação deletéria do homem frente à natureza, cura de doenças por parte daqueles que não comungam com o império farmacêutico,e soluções de pacificação de conflitos e estudos sociais postos realmente em prática.
O medonho alvorecer que se ergue do conhecimento em sua forma mais ampla, não atende as demandas para a formação de um sujeito social mais critico mediante sua própria existência e o que de melhor proporcionar a ela.
Cito o fato de uma das ramificações científicas, que é a astronomia, refutar pressupostos metafísicos em filosofia e ao mesmo tempo operar com teorias apriorísticas acerca do incognoscível, como as teorias primeiras e finais. Quem dirá da seleção genética ou mesmo da clonagem. Parâmetros estes que jamais podem fugir do debate filosófico mediante o homem já sucumbido pela crença verdadeira e engolfado pelo capitalismo ensurdecedor.
É obvio que toda discussão e pesquisa a priori é boa, se aprende muito, se contribui muito, mas isto não é operado em uníssono, e sim como uma maratona em que o prêmio em si não justifica os meios de obtê-lo.
O que preocupa é o ser humano no futuro com a perda de sua própria identidade, fato que adicionado a uma “escola” que corrobora com os mandatários que preconizam os ditames dos saberes, somente contribui para que afundemos cada vez mais nesta viagem da razão mediante as ilusões de si própria.
Parafraseando Boécio, em sua obra “A consolação da filosofia”, esta ainda é esperança para um futuro no qual ela ainda se mantenha em um patamar de inspeção e crítica dos sabe
Penso que podemos dizer que um filósofo em especial se “rebelou” contra os ditames científicos. Nietzsche vaticinou os grandes problemas da pós-modernidade, em especial que o homem deixou para trás aqueles instintos que protegem a vida, e nisto podemos incluir que hoje o conhecimento é ultra relativizado, fragmentado, e que não alcança sua união em seu bojo único e interdisciplinar.
Os pensamentos de Nietzsche sobre a investigação científica são tão desafiadores quanto a sua visão sobre a moral e religião. A ciência, como um “valor absoluto”, como uma nova religião ao qual nos prostramos, para nossa era sem Deus, é fortemente criticada pelo alemão.
Se perguntarmos, dentro de um escopo de cientificismo, “bondade com que fim?”, também devemos perguntar “conhecimento com que fim?”
Podemos dizer que os cientistas muito frequentemente se conduz como um servo do conhecimento, e sendo eles os novos ditames para uma prole órfã, os demais retentores do saber que atuam ao bel prazer de suas necessidades próprias também não visam as necessidade do coletivo. Ao invés de sermos servos do conhecimento, deixemos que o conhecimento seja o servo do homem.
Segundo ainda Nietzsche, existem muitas coisas que não desejaríamos conhecer. A sabedoria impõe um limite ao conhecimento também.
Se ignorarmos este aviso de Nietzsche, nos tornaremos viciados em conhecimento também, com terríveis conseqüências. Ele cita: “O fato de que a ciência, como a praticamos hoje, seja possível prova que os instintos elementares que protegem a vida deixaram de funcionar. Qualquer verdade que ameaça a vida não é uma verdade, é um erro”
A filosofia ainda é esperança quando esta nos remonta aos seus pilares integrados de outrora, quando as questões ontológicas reverberavam em discussões amplas acerca do potencial humano, do sujeito e da oposição ao descrédito humano e niilismo em que nos encontramos atualmente.
Quanto às ciências em particular, que é objeto desta minha crítica, ela tem uma forma maior do que realmente é. Dentro de um contexto de irracionalidade e indolência contemporânea, serão poucos ou nenhum aqueles que insurgirão contra os que mascaradamente atentam contra a vida, e que inculcam em nossas mentes que a vida longa e perfeição do corpo, mesclados com a subordinação irracional do homem frente os disfarçados mandatários dos ditos sociais, são de fato parte da fragmentação hedonista dos saberes que não se intercomunicam.
E já que o assunto é escola também, nesta o conhecimento a priori de que algo está em desarmonia com os “conhecimentos” não se passa pela cabeça, por mera questão de proveito próprio de todas as partes.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Descartes gera o atual problema corpo-mente- Osvaldo.


Podemos dizer que Descartes apregoa uma questão ainda em voga nos meios filosóficos, do dualismo corpo e mente.
Descartes deixa a questão do dualismo embasado no fato de que a substância “mente” não pode ser compreendida como parte da extensão, ou seja, da matéria.
Este é um tema atual inclusive na filosofia da mente, onde há um debate imenso entre a neurociência e as prerrogativas filosóficas de que se de fato o cérebro pode engendrar aquelas operações que fogem do escopo do empirismo e das sensações, como a intuição e as idéias que pressupostamente sejam inatas.
Descartes discorre acerca deste problema, iniciado por ele, ao professar que podemos claramente entender a noção de mente sem referência a qualquer coisa extensa, e que podemos entender claramente a noção de corpo sem referência a qualquer coisa consciente. Então é logicamente possível que a mente pudesse existir separada do corpo.
Mas para entender Descartes é necessário que, para fugir deste “solipsismo”, ele usa o argumento ontológico para a existência de Deus, que garantiria a possibilidade deste dualismo.
Se corpo e mente podem existir separados, então a mente não depende do corpo para sua existência e, portanto, o corpo não é parte de sua natureza essencial.
Por fim, é necessário salientar que este é um problema de ontologia para Descartes, no qual se subsume sua epistemologia , por assim dizer, que é uma das mais importantes na teoria do conhecimento.

domingo, 12 de setembro de 2010

Que racionalismo? Que homem inteligente? – Osvaldo


A proporção da do racionalismo humano é diametralmente oposta à ignorância do homem, este ainda que mantém suas características da ignomínia pré- histórica.
Não se trata apenas das crenças verdadeiras ou do senso comum que expressadamente volitam os recônditos do ser, mas da própria má vontade em se livrar desta puerilidade endêmica do intelecto.
Como já não bastasse o próprio mau uso da racionalidade em detrimento das opiniões claras, livres de preconceitos e humanisticamente inteligentes, o homem atual prefere se submeter ao crivo da “imbecilidade hiperbólica”, com permissão para o uso do termo cartesiano, para justificar suas tolices e falta de bom senso.
O que vemos hoje em dia é uma progressão do homem ao “concretismo” de suas idiossincrasias nefastas e mal julgadas. De sua ação na sociedade, meio ambiente e política. Como podemos atribuir isto ao racionalismo? Que racionalismo poderia ser este, que é completamente oposto ao verdadeiro principio do racionalismo filosófico? Não estaríamos confundindo racionalismo com racionalidade e suas corruptelas etimológicas?
De racionais, ou mesmo de “racionalistas”, não temos nada. O homem ainda prefere o relativismo de suas próprias proporções que ainda não se faz caracterizar como um ser atrelado à sua alteridade e de noção do outrem.
A saber, o homem é inexoravelmente um ser racional, e um dos papéis da filosofia, que é analogamente racional, é proporcionar ao homem “insights” claros e objetivos acerca daquelas questões que estão fundamentadas no escopo da investigação humana.
Não há erro nenhum em se admitir o homem como ser racional. Não há mácula, preconceito, tampouco evidencias claras de que ser racional é conformadamente igual a ser um idiota, como aqueles que apregoam a incapacidade humana de conhecer as “verdades” que são perenes a todos os homens, dadas à subjetividade, ao ser cognoscente.
Os relativistas, os sofistas, estão situados em um patamar de má crença no próprio ser humano no que tange sua capacidade de alçar um humanismo global e de entendimento uníssono.
Oras, se somos uma espécie de iguais, qual seria então a infamidade e inverossimilidade que propõe o relativismo até nossas entranhas? De certo somos seres diferentes uns dos outros em instâncias psíquicas ou talvez de como abordamos o mundo, mas não ocorre o mesmo quando o assunto é uma imanência das questões de comum acordo para todos, que abarque o humanismo e a desaceleração das idiossincrasias sociais, tanto quanto a própria forma do ser se relacionar com sua alteridade e contingência.
Ao propor que o homem é a medida de todas as coisas, os relativistas se esquecem que nesta proposição jaz algo um tanto quanto primitivo, de cunho estagnado em conceitos análogos àquilo que experienciamos de acordo com nossos sentidos primitivos de sobrevivência somente .
Para reforçar esta selva de esquizofrenia que o homem se encontra hoje, os assuntos que nos remetem ao sobrenatural são repletos de evidencias dogmáticas é mau fundadas que tratam de Deus, ética e moral.
Se alguém me disser que pode provar que Deus o outorgou a professar em seu Nome, direi que este alguém é falacioso e decrepitamente alucinado, sem bom senso e sem maturidade intelectual frente às questões de cunho incognoscível. Seria muita pretensão alguém querer falar em nome de Deus, de seus desígnios, das causas primeiras ou finais. Não obstante, apreender de forma racional a ordenação do universo torna-se uma capacidade latente no ser humano, assim como as idéias inatas presentes em todos nós, mas isto se torna uma faculdade de autoritarismo dogmático ao impingir no próprio homem temor, desavenças, baixo estima, esquizofrenia e irracionalismo quando de seu mau uso. Em um sentido lógico, é muito mais que claro que uma idéia de perfeição não contém, para todos os efeitos, as disputas irracionais dos homens acerca de suas veracidades religiosas.
Estamos apenas galgando passos muito curtos rumo a um racionalismo de fato. O que somos apenas é um ser na sua infância.

sábado, 11 de setembro de 2010

Descartes e a antiga ciência- Osvaldo



Descartes não rompe com a ciência, ele apenas dá outra configuração ao saber, rompendo somente com a essência da ciência escolástica, aristotélica, mas por outro lado não ignorando o saber até então apreendido de seus estudos na escola La Flèche.
A essência é para Descartes a subjetividade, ou seja, todo conhecimento parte do sujeito, em ultima análise, não das sensações do mundo exterior. Configura-se assim o sujeito conhecedor, aquele que determinará, em meio a uma selva, os caminhos que o conduzirão a seu exterior.
Descartes também une a isto o fato das idéias inatas, algo parecido com o que Platão professava em suas “formas”, idéias eternas.
A matemática em Descartes entra como dois benefícios, o primeiro de entes inteligíveis, ou seja, não precisam dos sentidos para operá-los, e o segundo como “rigor” metodológico para se “apurar” uma proposição.
Pois bem, para Descartes a primeira instancia de sua filosofia foi a veracidade do cogito, do ser cognoscente. Deus foi uma necessidade que também passou pelo crivo de sua duvida radical, chamada de “hiperbólica” com alusão à matemática por se tratar de uma duvida em escala universal, ou seja, ao invés de duvidar de cada coisa, ele duvidou de sua própria existência e até de Deus.
Portanto, a primeira evidencia para Descartes não é Deus, e sim o sujeito, a mente, e logo após, para não cair no ceticismo que se o mundo lá fora existe ou não, tornando sua filosofia apenas “idealista” (existente apenas na mente, como diz Berkeley), ele prova a existência de Deus (sem tratados teológicos) para a veracidade da ordem, do cosmos, e das idéias inatas que é de igual a todos os homens. Mas para tal somente a filosofia e o “método” poderiam proporcionar esta visão.
Sem sombra de dúvidas sempre processamos “referências”, e o ato de filosofar é ir além das referencias que se tornar um dogma. Devemos apenas imaginar até que ponto o ser humano consegue ir além dos referencias.
A saber, uma estagnação referencial pode também nos levar ao senso comum, ou crenças verdadeiras. Imagino que filosofar tem um preceito mais importante de todos, que é a dúvida metodológica, por assim dizer. Ou mesmo um método como a dialética ou o silogismo aristotélico para servirem de estopim à indagação. Mas nisto estamos situados ainda na teoria do conhecimento, esta que tenta de certa forma “universalizar” como é dado o saber humano, e até que ponto se pode conhecer algo de fato.
Vindo mais para a contemporaneidade, a filosofia existencialista tem como ponto fundamental não a metafísica, mas sim o “outro”, o próprio homem como referencial de sua existência. Mas aqui estamos então lidando com ontologia e fenomenologia, aspectos que nasceram a partir da metafísica da subjetividade de Descartes.

Do Relativismo - Osvaldo


Filosofar, em seu sentido estrito, está sempre atrelado ao fato do "conhecimento". Com efeito, a teoria do conhecimento é hoje um dos pilares mais marcantes ainda deste escopo filosófico. Se perguntarmos o que é filosofia hoje, poderíamos dizer que é tudo aquilo que não está categoricamente dividido em áreas diferentes do saber. O que resta então são a ontologia, a epistemologia e a metafísica.
Platão, em seu diálogo com Teeteto, que usa Sócrates como protagonizador , discorre acerca da natureza do conhecimento, pela primeira vez na filosofia então se embate um diálogo entre verdade e relativismo, e isto se refere aos sofistas.
Há de se citar aqui que este relativismo ainda hoje se torna uma problemática para a filosofia, pois ele não é apenas como uma filosofia do pragmatismo americano, mas sim abre um precedente enorme acerca dos problemas sociais mais evidentes quando a tentativa é abarcar um humanismo perene a todos os homens, já que em questão de humanismo, este salienta apenas o potencial humano da concórdia, ética e organização que não são adjacentes de uma metafísica ou mesmo de uma teologia.
Hoje relativismo é sinônimo de não debate, justificativa para o proceder desigual, superficialidade de noções políticas e falta de humanismo pelo fato do homem não mais ter consciência de sua alteridade, ou seja, de que o outro faz parte integrante de sua própria condição de ser, vide o existencialismo.
Portanto, a alegoria da caverna é dita em uma alusão folclórica, mas o intuito de Platão, para além de propor um conhecimento universal, é antes de tudo embasada em sua dialética que a priori leva o homem a se questionar em uma escala ascendente sem jamais se contentar com uma estagnação. Isto no mínimo gera um debate acerca do conhecimento que impossibilita uma inexorabilidade relativista.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Acerca da verdade de cada um - Osvaldo


A grande problemática está no “refinamento” final da verdade de cada um, que por assim dizer irá gerar o que concebemos hoje por relativismo endêmico.
Como em uma dialética ao modo de Sócrates, o que pretendemos na maioria das vezes é um debate no qual nossas crenças mais íntimas estarão ocultas, ou no mais tardar, a opinião alheia é obliterada de forma subliminar neste composto dialético do retentor da verdade (quem de fato abriria mão de suas verdades finais mais “pungentes”?) como em um debate entre amigos, o dito é que religião ,futebol e política não se discute, portanto a dialética é meramente estanque a determinado ponto de sua elucubração.
Na época de Sócrates isto seria algo tremendamente elucidativo, mas hoje não mais, pois o relativismo é fossilizado nas entranhas do ser, quando não muito,hoje, é uma verdade em nível dogmático através das impressões dos sentidos ou do pragmatismo funcional.
A saber, a filosofia trata dos assuntos mais delicados, aqueles que poucos ousam debater no viés da dúvida como princípio e de uma crítica que a antecede.
Isto está muito caracterizado conforme explica Nietzsche na confluência de forças antagônicas e internas engendradas pelo próprio homem, em uma análise da subjetividade humana. Ao mesmo tempo em que queremos algo, simultaneamente não queremos nada.
A filosofia, em última análise, serve para demolirmos as crenças mais pueris apreendidas ao longo da vida, e mesmo assuntos de cunho metafísico se tornam mais claros e menos dogmáticos quando os tratamos a partir do olhar ontológico, do ser,da subjetividade, e não mais daquilo que é externo a nós e imposto.
Voltando a Nietzsche, de fato a idéia de um homem “ideal”, ao menos no que tange toda a capacidade humana de valoração da espécie, é ainda algo póstumo que assim já preconizava o filósofo em seu tempo, mais de um século atrás. Ou seja, não somos capazes nem ao menos de sermos homens de bem e racionalmente “ordenados” e libertos mesmo mediante do pressuposto de antologia pura, já que neste caso se descarta toda a metafísica, e se há alguma metafísica implícita, é a do temor!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Das inexorabilidades da razão - Osvaldo


Mergulhando mais fundo na questão, não haveria algo de "endêmico" em algumas criticas no que concerne a "razão" pela própria razão...ou seja, destituindo os clássicos argumentos racionais desde Sócrates, o que poderíamos "colocar" no lugar?
Ao que me parece, tudo culmina em um sentido evolutivo do próprio homem, sendo este ou não dotado do "bom uso” da razão ou o que ela de fato significaria hoje, pois desde as formas primitivas do ser humano, quando o cérebro ainda não tinha toda sua formação atual, me parece que Darwin não se exclui disto em suas teorias tampouco.
Penso que a grande questão é de fato social, humana, idiossincraticamente gerada pelo próprio homem com suas façanhas pueris.
Jung faz uma longa explanação acerca da “sombra” individual, analogamente à coletiva, geradas por nós mesmos.
Kant talvez tenha acertado em cheio no que diz respeito a “diversas formas de observações”, isto é uma própria observação minha acerca do autor também. Descartes já havia se identificado como talvez um filósofo “pluralistas”,antes do advento das ciências antropológicas,ao não ser inserido nos limites da filosofia continental, fato este que foi suscitado quando o próprio ingressou nas tropas de Mauricio de Nassau e passou a conhecer outras culturas e costumes, embora de forma um tanto quanto escassa, dado as dificuldades de transporte da época. Descartes foi o famoso filosofo “mascarado”, por não poder dizer de tudo que pensava naquela sociedade de seu tempo.
A única proposição, em filosofia clássica, de um iminente “caos” universal, incluindo das possibilidades de “conhecimento” humano, seria o ceticismo absoluto de David Hume, este que também quase avassala o método dedutivo tanto quanto o indutivo, formas bem conhecidas de como hoje praticamos a nossa ciência e investigação.
Posto isto, não me parece que é mera “ilusão de ótica”, ou o fato de concebermos tempo e espaço distorcidos e de forma linear, que uma regularidade e ordenação das coisas como são dadas no universo não existam. Caso contrário, apresento-lhes a teoria do cérebro em uma cuba, ou mesmo do gênio maligno de Descartes, antes de suas conclusões finais, para talvez reforçar o argumento “ilusório” a la Matrix no que concerne uma tangibilidade perniciosa ou falaciosa daquilo apreendido por nossas mentes.
Num argumento filosófico anti-ceticismo, penso que em se tratando de assuntos macro, estes são perenes e de forma inexoravel independentes de nossas observações que, no micro, se esvanecem no “lambuzar” deste novo doce que é o advento da razão que, junto com filósofos apenas “ocidentais” demais, se perdem ainda ao identificar erros, mas nada propor para a correção.
Tenho muito claro para mim que filosofia ainda é clássica, e que seus desdobramentos se converteram em áreas como sociologia, antropologia e psicologia, dentre outras.
Voltando para a razão, não vejo de que outra forma o homem poderia deixar de usar sua ferramenta “cerebral”, já que penso que “pensar” não é apenas um exercício da raça humana, mas também uma necessidade “inesgotável.
Uma ala mais radical da filosofia culparia os gregos desde Sócrates para esta atual culminação, mas o erro é inerente à espécie, e talvez errar não seja desumano a partir deste principio, pois os mesmos se esquecem de uma substancial diferenciação de culturas e relativismos, e que o ser humano foi compartimentalizado em “setores”, aí sim podemos culpar a idolatria da razão, que enaltece tanto o senso comum quanto as imbecilidades advindas do mau uso da própria, ou mesmo talvez para onde caminham os futuros desafios da filosofia, que talvez seja uma batalha homérica contra o patamar cientifico mais alto que fará que o ser humano se oblitere de sua própria condição humana frente a clonagens e outras tecnologias avançadas, ao brincar simplesmente de “criadores”.
A metafísica filosófica ocidental é o que o pensamento “integrado” é para o oriente, a primeira se dá numa tentativa “racional” de compreender a incognoscibilidade de tudo que nos rodeia, portanto ainda ela é meramente “metafísica”, ao passo que a segunda, inexoravelmente, se valida em seu argumento por uma metafísica perene, ou seja, da necessidade da existência de Deus, Buda, Krishna, ou Oxalá, por exemplo.
Penso que, dentro do escopo acima, não há uma divisão entre razão e fé para os ocidentais, nós já integramos isto na razão, ou se preferir, de forma institucionalizada, e poderíamos voltar até na “sombra coletiva” de Jung.
Mas o “mal” ainda sempre está relacionado às questões falaciosas, crendices, preconceitos, intolerâncias ou mesmo no argumento do terceiro excluído e redicionismo ontológico, e se fossemos apenas “deletar” isto da atualidade que vivemos, retrocederíamos a um ponto ainda da formação do homem e em que este não tinha o “assombro” mediante sua própria existência. Arrisco dizer que isto é latente, e não induzido, porém contornável, com muito esforço, mas contornável.
O argumento do ceticismo filosófico, que também tira os créditos da razão enquanto formas de conhecimento, também é falho, diria inclusive que é um contra-senso para as investigações ontológicas , que também se inserem na metafísica. Somente não façamos confusão entre Ceticismo clássico e ceticismo “metódico”, adotado por Descartes para Eliminar em sua época crenças infantilizadas ou mesmo as advindas do senso comum.
Usar bem a razão não é tão mal assim, talvez o homem fosse bem menos “caniço”, não fosse por suas emoções de resquícios primitivos, as quais ainda o fazem esquecer que a era da “sobrevivência” em si já passou, mas seus resquícios permanecem num córtex ainda a lapidar.
A lógica clássica ou a razão não fomenta as idiossincrasias sociais e psicológicas que encontrarmos hoje, pois na época dos gregos antigos nada se sabia de estudos do cérebro humano, ainda não existia Freud nem Jung, tampouco a neurociência.
Minhas únicas prerrogativas acerca de meu argumento acima foram da não sacralização da razão lógica em detrimento das questões inatas, intuitivas, que acredito, cercadas pela sustentação de uma “apuração” do que realmente podemos nos basear, advindo de um processo “racional”, que é operação básica do ser humano, pois ele pensa, assim como talvez lá bem na frente possamos cometer menos erros assombrosos oriundos de nossa precária operação mental.
Pensa-se em grande parte de forma errada, sei bem, e sei também que o raciocínio puramente lógico está inextricavelmente atrelado ao ceticismo, ou seja, nesta linearidade binária do pensamento, seja ele “comum” tanto quanto “erudito”, não prevalece nada além da “tangibilidade” de proposições que são tidas meramente como “apriorísticas”, ou seja, o homem já tem por certo questões, mesmo que científicas, de pressupostos não “a posteriori”, e isto esta analogamente relacionado ao senso comum binário, pois se crê veementemente na tangibilidade das operações mentais, ou seja de seu conteúdo, de forma que um escrutínio por parte dos mais leigos acerca de fatos que englobam um “todo coeso” é descartado em beneficio da obstrução do intelecto.
Sendo assim há apenas uma “descrença” de processos levados a cabo também pela intuição humana, ou mesmo idéias inatas, que de fato estariam “guiando” nossos sentidos, de modo que bem conduzidos, ao tentar chegarmos mais próximos de uma “verdade” que não fosse banalmente relativizada.
A metafísica da subjetividade, advinda de um filósofo moderno e racionalista e que foi o estopim para estes temas da mente, deixa claro que o homem “não é um piloto em seu navio”, não é uma mente comandando um barco, mas um todo coeso, a dualidade corpo e mente é puramente metodológica, o mental não ocuparia espaço, e o não mental ocuparia espaço, temas semelhantes são abordados hoje em ramos filosóficos como a filosofia da mente ou mesmo em neurociência.
De modo algum o projeto de Descartes, mal compreendido tanto quanto as escrituras de Nietzsche, ao pressupor que o Francês foi criador desta contemporânea “racionalidade” despótica e lógica, está relacionado ao ceticismo ou à banalização do saber. Poderia se culpar em enorme escala o relativismo extremado para a banalização do senso comum, coisa que pode ser varrida pelo iluminismo da razão bem direcionada.
Deve-se de fato aqui citar a filosofia moderna cartesiana como precursora desta discussão, pois como bem sabemos quase todas as ciências advêm da filosofia, e o projeto cartesiano, ao menos no campo filosófico estrito, isto é, metafísico, não era o de “entender o homem”. No campo metafísico seu projeto era o de mostrar a inconsistência de posições relativistas e, enfim, céticas. Um projeto daquele que o próprio Platão se fez porta-voz, depois de Parmênides e Heráclito: o de encontrar e bloquear mecanismos pelos quais nós nos enganamos e tomamos o falso pelo verdadeiro.
Assim, o projeto cartesiano é no âmbito da verdade. Mas, a partir dele, e incentivado por ele, as pesquisas filosóficas não serão somente sobre a verdade, mas também sobre o “eu”. A certeza é alguma coisa do âmbito subjetivo, e o trabalho dos filósofos será o de mostrar que o “eu” que apresentam é universal e, ao mesmo tempo, não uma figura estranha aos homens.
A saber, o senso comum foi algo tido como pioneiro pelos sofistas, e se para mim eu sou a medida de todas as coisas, eu também então poderei não ser a medida de todas as coisas, em um raciocínio binário, mas o primeiro argumento é o que de fato prevalece neste emaranhado de relativismos pueris, nos quais a banalização do sujeito tanto quanto do conceito de verdade foram engendrados.
Em ultima instância, é natural dos homens complicarem aquilo que é tão simples.
Mas podemos não mais discutir isto se assim preferirmos, pois me parece que sempre estamos tentando falar a mesma língua, mas com um viés diferente e igualmente sendo enganados por nossas sensações "semânticas" e apriorísticas de nossos respectivos prismas, pois parafraseando Hume, filosofia pode ser um grande passatempo, e temos que comer e sociabilizarmos, sob os auspícios de um mundo de fantasias(este último acrescentado por mim).O relativismo não é base para o conhecimento. Refutar a razão humana frente à possibilidade de humanismo significa somente servidão às crenças e impossibilidade de autonomia.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Platão,Pitágoras e Descartes- Osvaldo


É muito tentador dizer que não foi somente Descartes que se baseou na inteligibilidade do ser imutável das matemáticas para sua proposição ao conhecimento.
Talvez podemos inferir que Platão diria que a morte de Sócrates foi o momento Da virada em sua vida, pois Atenas não era mais um local seguro para os discípulos de Sócrates, sendo assim, ele vagou exilado pelo mundo mediterrâneo por mais de uma década, finalmente chegando à Sicilia, onde encontrou uma seita de pitagóricos.
Pitágoras fundou um culto “bizarro” de matemáticos no século VI AC, que acreditava poder compreender a natureza do cosmos através dos números . Penso que até aí tudo bem, mas o que vem a seguir é muito duvidoso.
Para purificar suas mentes para os cálculos místicos, os pitagóricos fizeram um voto de “segredo”, só podiam vestir branco, e não praticar nenhum ato sexual.
Alguns outros princípios do culto eram tanto estranhos, como a proibição de “tocar” em feijões.
Poderíamos também deduzir o mote de Pitágoras como “tudo é um numero”, o que significava que nosso universo material e bagunçado é a expressão imperfeita de um universo abstrato superior, um perfeito e harmonioso reino dos números. Vemos aqui outra fonte inspiradora para Platão, ao no mínimo algo que viria corroborar com suas premissas finais.
Bem, a exposição a esta teoria levou Platão à conclusão de que a verdade “real” era abstrata, e como os números, havia a verdade imutável e eterna.
Podemos dizer que todas as cadeiras, por exemplo, são simplesmente um “expressão” da idéia de uma cadeira, e embora nossas cadeiras “reais” sejam falhas e temporárias (Parmênides?). A idéia ou forma de uma cadeira é eterna e imutável.
Depois de passada toda a historia de Platão, de quando foi escravo do rei da Siracusa , e finalmente na Academia, o filósofo livrou o pitagorismo de seus rituais bizarros.

domingo, 5 de setembro de 2010

Ser ou não ser? A incompreensão de ser- Osvaldo


A todo ato de filosofar, a vida se apresenta de forma muitas vezes irracional, isto é, fora da operação de uma racionalidade que pressupõe que os dados apreendidos à mente sejam verdadeiros.
O existencialismo, já desde seu avô Kierkegaard, sempre questionou o sentido do ser na existência e sua finalidade. Albert Camus diria que a existência individual deveria ter um sentido mediante sua falta de sentido.
A partir da modernidade e após o advento racionalista proposto por Descartes, este eleva o ser humano à condição de “examinador” da existência, ou melhor, o homem estava a partir de então longe, em definitivo, dos dogmatismos impostos pela religião que não permitia questionamentos acerca das causas finais e primeiras.
Citar apenas que Descartes propõe a comprovação ontológica de Deus pelo motivo de sua religiosidade cristã é um erro crasso, o filósofo jamais menciona questões teológicas para sua crença em Deus, e sim parte de um argumento que se encaixa em seu projeto para o conhecimento, e de toda a ordenação aparente do universo que não é apenas criado pelos sentidos humanos. Estes quando muito, podem ser refinados em sua metodologia rigorosa que é baseada nas matemáticas, entes inteligíveis e indubitáveis.
Mas o legado de Descartes também traz várias outras complicações para o ser cognoscente, a partir do advento da subjetividade. Ser ou não ser, mesmo após a afirmação do “ser”, nos coloca em uma posição já amplamente discutida pelo existencialismo, que em seu viés se baseia no ateísmo, na existência que precede a essência.
Se sou, o que faço? Se sou, como posso evidentemente me posicionar mediante um irracionalismo que amargamente se aprofunda através do hedonismo e do primitivismo social e intelectual humano?
O advento da subjetividade já não comporta mais determinismos clássicos para o ser humano, ainda mais das provindas de teorias e crenças que nos mostram um Ser que tem uma relação esquizofrênica com sua prole ou teorias que fazem que nós mesmos sintamos esquizofrênicos. No entanto o existencialismo propõe que o homem se faça a cada dia, e tome como responsabilidade sua conduta.
Nietzsche exorta o homem sem temor mediante sua existência, o além do homem, este que jamais estaria envolto de pressupostos deterministas ou em uma moral aniquiladora de seu potencial mais sublime: sua própria realização.
Crer em uma causa primeira e final para toda a existência não pressupõe uma crença temerosa de preceitos e regras para simplesmente “ser”. Em nossa neo-subjetividade estamos ainda um pouco longe de tratarmos do absoluto sem temores impingidos por aqueles que detêm a verdade “temporal”. Quem assegurou a alguém a posse de verdades acerca de outrem, e do que é melhor para um indivíduo que tem, em sua singular existência, ao menos a noção de liberdade de ações?
Longe do filosofar, só resta ao homem mergulhar no absolutismo de sua neo-subjetividade de temores.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Da moral provisória em Descartes- Osvaldo


A saber, Descartes foi um dos primeiros filósofos a querer ir descobrir como era dado este relativismo afora “in loco”. Para tal ele não tratou como Kant de uma moral universal, ou seja, um “imperativo categórico” provindo ainda da razão.
Ao se juntar às tropas de Mauricio de Nassau, assim como em outras aventuras, estas foram dadas apenas pelo desejo de Descartes de descobrir o mundo afora, e dentro desta relatividade de costumes e culturas ele propõe que a moral seja apenas “provisória”, ou seja, que cada cultura em particular não necessariamente atenda a uma categoria universal, mas sim a de seu devido contexto e possibilidades. Mesmo assim isso não pode fugir daquilo que pode ser conhecido de forma universal a todos os homens, pois a razão é de igual forma distribuída a todos. Se fazem bom uso disto ou não já é um outro debate.
Oras, como poderia isto se possível se o próprio Descartes combatia o relativismo? Pelo fato que sua procura “universal” estava na questão do conhecimento, das ciências, e não se alguém que é polígamo em alguma parte do oriente se faz menos “humano” do que um ocidental monogâmico. Mesmo porque políticas e sociedade estão fora do escopo epistemológico cartesiano. O que mais vai além disso em Descartes é seu argumento ontológico para a existência de Deus, e este nada a ver com teologia ou doutrinas., mas ainda dentro de um âmbito do conhecimento, subjetividade, idéias inatas, e lógica.
A saber, o viés atual de racionalismo em nossa sociedade, é do modelo cartesiano, embora não muito seguido ao pé da letra, portanto ele não é em “desuso” . O que acontece é que racionalismo hoje abre um debate muito amplo em filosofia, como filosofia da mente, neurociência, lógica pura, filosofia da linguagem e outros,. Todos advindos do grande abalo nas estruturas do pensar a partir da “elevação” do sujeito proporcionado por Descartes. Sem contar que a psicologia e a fenomenologia estão ambas atreladas a ele.
Aqui vai uma opinião própria minha, pois penso que em filosofia jamais filósofo algum abalou estruturas de forma tão radical e que prevalecesse. Nem Marx, nem Nietzsche. Pois Descartes mergulhou dentro de nada mais nada menos do que as fundações profundas do conhecimento. Este que nenhuma das outras ciências a não ser a filosofia e a metafísica pode alcançar.
Apenas o ceticismo pode abalar estas estruturas. E isto é filosófico. E como pediria Descartes, que venha o ceticismo! Mas que ele seja feito com rigor, método, e alcance os fundamentos que o próprio cético não pode negar: de sua subjetividade! Senão tudo não passa de um grande sonho, em que estamos perdidos numa floresta sem saída.

domingo, 29 de agosto de 2010

Uma nova leitura para a alegoria da caverna? - Osvaldo


Nietzsche vai revirar no túmulo, mas aqui vou citá-lo, e a morte de Deus.
Porquê? Bem, a saber, segundo o autor eu, você e os outros matamos Deus. Este argumento pode ser impactante se não aprofundado, mas para tudo há uma boa razão de se dizer.
Voltemos à alegoria da caverna, e como o colega bem citou acima do “temor” frente à verdade que, após ofuscar os olhos, leva o prisioneiro de volta às trevas.
Agora voltemos para nossa contemporaneidade, que é submersa por um niilismo marcante da falta de valores. E se há “valores”, estes são apenas os que incapacitam o potencial humano, numa mistura muito homogênea com o hedonismo marcante, fator este que é um adicional muito pejorativo para agora, alem de inibir o homem a sair da caverna, o torna cego de vez!
O hedonismo é uma marca muito característica dos tempos atuais, largamente criticado e vaticinado por Nietzsche mais de um século atrás. Tal fenômeno está relacionado à nossa orfandade após o óbito de um balizador para a humanidade que sempre foi Deus, dando espaço para os vieses científicos contemporâneos que aludem a formação de um novo homem, ou seja, a ciência assume o lugar de Deus em seus joguetes que nos remetem às discussões éticas como a clonagem, que por sua vez nos leva de volta a Nietzsche quando este vaticinou que cada vez mais o homem perdia a noção instintos que protegem a vida.
Oras, o hedonismo, arrisco dizer, além de estar coadunado com a inescrupulosa falta de conhecimento do homem moderno,é uma característica marcante, moderna e ilusória para a alegoria da caverna. E este medo frenético que o homem tem é um paradoxo latente. Ao mesmo tempo que ele quer se firmar em sua razão ele também não quer. O único vácuo deixado pela morte de Deus só pode ser preenchido pelo positivismo das ciências assim como com o poder e ilusão do consumo e das superficialidades modernas.
Bem, resumindo, pois isto vai longe, Platão nunca esteve tão moderno frente a um falso racionalismo que também não foi idéia base de Descartes.

Um ceticismo acerca das matemáticas? - Osvaldo


Não sei se podemos assegurar, a não ser através de um argumento cético, que as matemáticas sejam “finitas” neste caso, ou apenas quando o fenômeno não é apreendido.
Mas também não podemos dizer que Descartes está preocupado com o “infinito”, mas sim com a comprovação de que certas verdades são as mesmas verdades à disposição a todos os homens independentemente do relativismo filosófico endêmico. Seu projeto é dado a partir da descrença e ceticismo que se originava, sendo que o próprio filósofo já não podia confiar nos próprios juízos após estas indagações e das ciências que eram operadas ainda pelos sentidos, mesmo estas sendo empíricas.
A questão está na facilidade do método, ou seja, as matemáticas não apenas são constituídas de rigor como também são entes inteligíveis, e para Descartes isto vem a corroborar com as verdades do mundo que também podem ser apreendidas de forma inata, e ainda pela razão. Não vamos nos esquecer que a filosofia em si, em seu sentido estrito, lida com as operações racionais desde sua antiguidade.
O problema maior de Descartes é contra o ceticismo, este que estava aumentando no período moderno após as “avalanches” do renascimento e das novas descobertas cientificas, e tinha como interlocutores famosos Montaigne.
Da inteligibilidade dos conceitos matemáticos todos nós não podemos negar, pois estes não são operados pelos sentidos, dado a impossibilidade de sua contradição.
Com efeito,Descartes faz uma reviravolta surpreendente ao trazer de volta os vieses da Grécia antiga após o vácuo deixado pelo dogmatismo escolástico, e não obstante, eleva o sujeito como “conhecedor”, explorador e “certificador” daquilo que até então era imposto de forma inquestionável. Ele sistematicamente “implode” toda a forma de pensar rudimentar até então, esta que também perdura até os dias atuais.
Oras, como já disse nas outras postagens do mesmo tema, uma vez que Descartes procura um fundamento verdadeiro que dê a certeza que ele necessitava para a epistemologia, ele ainda tem um problema que originara sua busca.
Se tenho a certeza de minha existência, se cogitamos,se apreendo as matemáticas sendo esta imbuída de inteligibilidade, ainda assim a verdade lá fora não pode ser provada, mas apenas minha mente e existência posso provar. Ele então é fadado, inicialmente, ao solipsismo.
Isso significa que sou apenas uma substância pensante, mas para provar também a realidade da “res extensa”, ou seja, da matéria, ele formula o argumento ontológico para a prova de Deus que se resume no “back-up” de todo o conhecimento possível, mas este após o rigor da edificação de um edifício forte e seguro.
Para finalizar, você citou: “No máximo a proposta de Descartes de um método de viés matemático pode explicar como a mente conhece, mas não como são de fato”.
Este é um assunto extenso, não dá para resumir aqui, é impossível, talvez você esteja se referindo a algo estritamente ontológico e fenomenológico aqui, tratado a partir do cartesianismo e do cogito. Ainda digo que não é o viés cartesiano, e sim a teoria do conhecimento a partir da primazia da subjetividade. Grosso modo, ele eleva o sujeito a um status sem precedentes.
Esta sua indagação nos remete de forma abrangente à fenomenologia, tratado por Brentano, Husserl, Ponty, Heidegger, e Sartre. Mas advinha quem dá o impulso inicial?
O próprio Descartes.

sábado, 28 de agosto de 2010

O modelo atual de pensar é de fato cartesiano? Osvaldo


A ciência moderna, tanto quanto os vieses racionais da atualidade, empregam a base cartesiana para se propor o que de fato é "verdadeiro".
Mas devemos salientar que a razão em si toma um rumo diametralmente oposto daquilo que havia proposto Descartes. Como tudo acontece em filosofia, parece que o que é bom ao homem se torna uma área de conhecimento à parte e, a partir disto, hoje o que resta em filosofia propriamente dito é somente aquilo que não debate as áreas dos saberes, a exemplo de psicologia, ciência, antropologia, sociologia, física e biologia. Estas que outrora faziam parte de todo um compêndio filosófico.
Descartes propôs uma metafísica que jaz por detrás de sua obra, e esta de fato é o viés necessário para a fundamentação do “eu” cognoscente, e que por detrás de tudo está assegurado pela existência de Deus (há de se ressaltar aqui um debate não teológico, mas de logicismo), para que não caiamos no ceticismo da existência do mundo físico e de nossa própria subjetividade, como em um idealismo, ou seja, o mundo só existe em nossas mente (este foi um dos problemas iniciais de Descartes após o descobrimento de sua primeira verdade, a do cogito.
Oras, a saber, ciência e Deus hoje não mais combinam. Tanto quanto o fato da metodologia cartesiana, se fosse bem empregada, não haveria os erros idiossincráticos daqueles que o fazem segundo suas “razões”. E razão hoje ainda é “irracional”, tendo em vista que ela não é bem empregada e conduzida, preferindo-se muitas das vezes aceitar o irracionalismo do mundo, ou seja, a presente sociedade vive, mata e morre de modo mecânico, sem motivos lógicos, sem dar conta dos próprios atos. Irracionalismo é agir sem inteligência, sem equilíbrio entre razão e emoção.
Penso que há um erro endêmico em se dizer que o atual “modus operandis” seja cartesiano. Não é! Ao menos não completamente, pois creio que para a ciência prevaleceu o método e seu rigor apenas, e para a humanidade a ilusão de que o senso comum, capitado e elaborado pelos sentidos, ainda salta à razão como verdades eternas.
É uma circularidade, que nos remete de novo a Parmênides e Heráclito, que por sua vez a Platão, para “depois” Descartes , David Hume, Kant, Hegel, e que por sua vez volta para Parmênides...
O que acontece de fato é que hoje ainda praticamos bem menos filosofia do que outrora. Razão é um sinônimo radicalmente oposto à emoção, como em uma relação paradigmática entre o sagrado e o profano, ou seja, os dois coabitam, no entanto um fenômeno de cada vez apenas pode ser apreendido. E entre as batalhas da razão e emoção, nossos instintos ainda acabam por sobressaírem, na esmagadora maioria das vezes, e lembrando Pascal, o coração tem razões que apropria razão desconhece.
Que isso não nos sirva de arrimo jamais! .

Da audácia do projeto cartesiano – Osvaldo


Há algumas intertextualidades entre Platão, Aristóteles e Descartes, por assim dizer, que nos remetem ao projeto cartesiano.
Após o medievalismo da filosofia que havia se suicidado em termos de experiência devido ao fato das imposições tomistas e aristotélicas empregadas pela escolástica, Descartes é plausivelmente considerado o precursor de toda a modernidade que, ineditamente rompe com os dogmatismos que eram análogos às verdades impostas do mito grego, outrora, ou mesmo de pressuposições céticas quanto ao conhecimento, e este último, já datado no período clássico da Grécia antiga, na qual se via Sócrates e Platão tentando contrapor o relativismo sofista, que abre precedentes à duvida não cientifica e sem critérios.
O projeto de Descartes se torna então de tal magnitude tanto quanto de um "modesto" conhecimento, ou assertiva, dada a inferência de sua "descoberta", se assim posso denominar, da "metafísica do sujeito" que abriu portas para o que conhecemos hoje como fenomenologia e filosofia da mente, tanto como certas ciências cognitivas.
Como não é possível tratar de filosofia de forma sucinta, eu devo discorrer acerca de pontos chaves, ao menos do grande racionalismo de Descartes, que tem um objeto grandioso de evidenciar as verdades através de um método seguro e também evidenciar que, contrapondo o empirismo e o ceticismo, ele volta às questões das reminiscências platônicas e refuta o modo aristotélico de cosmologia e conhecimento.
Bem, de forma inversa eu vou expor que Descartes culmina em seu "argumento antológico" para a existência de Deus, mas este por premissas mais lógicas do que as "especulativas" do argumento de santo Anselmo, no período medieval e escolástico. Mas provar a existência de Deus para descartes era secundário, pois ele pois à prova todo o conhecimento possível existente até então, principalmente os herdados de sua formação acadêmica, e nisto, por fim, ele incluiu as certezas absolutas dos entes da matemática. Fez-se então a duvida "hiperbólica", sendo esta uma alusão às matemáticas e ao radicalismo desta dúvida, que inclui Deus, a si mesmo e o mundo externo.
Como sua primeira descoberta foi a do "cogito", do ser cognoscente, ele funda a sua primeira verdade "exclusiva", e a partir de tal assertiva ele é capaz de chegar às outras verdades através de sua metodologia que, a saber, se resumiria em um critério matemático a priori, que é:
1-Não aceitar nada que não seja evidente e indubitável; 2- Dividir o problema em quantas partes for necessário, a fim de analisá-las individualmente; 3- Conduzir o pensamento por ordem, partindo dos objetos mais simples para os mais complexos; 4- Verificar minuciosamente as conclusões de modo a nada escapar.
O pensamento lógico-matemático aqui não se presume em um ceticismo perene acerca do próprio Descartes, mas penso que é apenas característico de uma "inspiração" que fundamenta todo seu projeto, este com o qual podemos obter a certeza de certas verdades de uma maneira dedutível, porem metodológica, na certeza de que elas corroboram com nossas idéias inatas, pois sendo provado a existência de Deus, a que tudo sustenta como verdade das coisas apreendidas pela mente ,um processo subjetivo para compreender a inteligibilidade das coisas, Descartes obtém sucesso como numa circularidade que culminaria nos próprios entes matemáticos e de sua certeza, criando um problema para o ceticismo filosófico tanto quanto para o irracionalismo, mas alavancando os métodos científicos a partir de então.
Como percebemos, a partir de uma leitura minha, muito do que se preconiza em nossas ciências, como as cosmológicas, parecem aos cientistas premissas tão certas mesmo sendo apriorísticas, como quando se trata de teorias de causalidades e das teorias finais, que fogem aos sentidos humanos e de nossa tecnologia, portanto arrisco dizer que isso se faz através de uma possibilidade de conhecimento intuitivo, já que Descarte afirmava que seria dada ao ser humano a possibilidade de conhecimento das coisas, não havendo "coisa-em-si" (minha leitura) ao menos ao que é inteligível, e sem a prova ontológica da existência de Deus, Descartes seria fadado ao "solipsismo", da existência de tudo somente na mente humana.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Descartes e Platão, uma intertextualidade - Osvaldo


Penso que podemos dizer que há uma linearidade no que tange os métodos da filosofia através do tempo.
A saber, podemos dizer que Sócrates estipulou a maiêutica; Platão a dialética e a reminiscência; Aristóteles a lógica; a idade media a disputa; e em Descartes uma metodologia que perdura, mesmo “aos trancos e barrancos”, por que de “razão” não se tem nada no homem moderno, desde a modernidade filosófica.
Filosofia esta que gerou impacto profundo após sua concepção, após a renascença , na qual Descartes muda completamente o aspecto dos “métodos”.
É interessante salientar que o método não recai mais sobre a discussão posterior à intuição, quanto sobre a própria intuição e os métodos de consegui-la.
Disto podemos inferir que o método filosófico na Antiguidade e na Idade Media se exercita principalmente depois de ter obtida a intuição, ao passo que o método filosófico da Idade Moderna passa a exercitar-se na principalmente antes de obter a intuição e como obtê-la.
De acordo com o Discurso do Método de Descartes, e as idéias filosóficas deste que preocupava como poderíamos chegar a uma evidência clara e distinta, como chegar a uma intuição indubitável e distinta, quer dizer como chegar a uma intuição indubitável da verdade.
Os caminhos que conduzem a esta intuição (não os que depois da intuição a garantem , a provam, ou a depuram, mas que conduzam a ela) são os que principalmente interessam Descartes.
O método é agora pré-intuitivo, e tem como propósito inicial conseguir a intuição.
Aí nos resta uma indagação: como se pode conseguir a intuição? Não se pode conseguir mais do que um modo, que é procurando-a; quer dizer, dividindo em partes todo o objeto que nos aparece confuso, obscuro, não evidente, (alguma intertextualização aqui com Platão?, Ou engano meu?) até que algumas dessas partes se tornem para nós um objeto claro, intuitivo e evidente.
Então já temos a intuição.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Do amargo ceticismo à prova da existência do “Eu”.


Aqui tenho como referência as obras “Discurso do Método” e de “Descartes, A Metafísica da Modernidade”.
De acordo com intertextualidades entre Descartes,Platão e Aristóteles , penso que , após o medievalismo da filosofia que havia se suicidado em termos de experiência devido ao fato das imposições tomistas e aristotélicas da escolástica, Descartes é plausivelmente considerado o precursor de toda a modernidade que, ineditamente, rompe com os dogmatismos que eram análogos às verdades impostas do mito grego, outrora, ou mesmo de pressuposições céticas quanto ao conhecimento, e este último, já datado no período clássico da Grécia antiga, na qual se via Sócrates e Platão tentando contrapor o relativismo sofista, que abre precedentes à duvida não cientifica e sem critérios.
O projeto de Descartes se torna então de tal magnitude tanto quanto de um “modesto” conhecimento, ou assertiva, dada a inferência de sua “descoberta”, se assim posso denominar, da “metafísica do sujeito” que abriu portas para o que conhecemos hoje como fenomenologia e filosofia da mente, tanto como certas ciências cognitivas.
Como não é possível tratar de filosofia de forma sucinta, eu devo discorrer acerca de pontos chaves, ao menos do grande racionalismo de Descartes, que tem um objeto grandioso de evidenciar as verdades através de um método seguro e também evidenciar que, contrapondo o empirismo e o ceticismo, ele volta às questões das reminiscências platônicas e refuta o modo aristotélico de cosmologia e conhecimento.
Bem, de forma inversa eu vou expor que Descartes culmina em seu “argumento antológico” para a existência de Deus, mas este por premissas mais lógicas do que as “especulativas” do argumento de santo Anselmo, no período medieval e escolástico. Mas provar a existência de Deus para descartes era secundário, pois ele pois à prova todo o conhecimento possível existente até então, principalmente os herdados de sua formação acadêmica, e nisto, por fim, ele incluiu as certezas absolutas dos entes da matemática. Fez-se então a duvida “hiperbólica”, sendo esta uma alusão às matemáticas e ao radicalismo desta dúvida.
Como sua primeira descoberta foi a do “cogito”, do ser cognoscente, ele funda a sua primeira verdade “exclusiva”, e a partir de tal assertiva ele é capaz de chegar às outras verdades através de sua metodologia que, a saber, se resumiria em:
1-Não aceitar nada que não seja evidente e indubitável; 2- Dividir o problema em quantas partes for necessário, a fim de analisá-las individualmente; 3- Conduzir o pensamento por ordem, partindo dos objetos mais simples para os mais complexos; 4- Verificar minuciosamente as conclusões de modo a nada escapar.
O pensamento lógico-matemático aqui não se presume em um ceticismo perene acerca do próprio Descartes, mas penso que é apenas característico de uma “inspiração” que fundamenta todo seu projeto, este com o qual podemos obter a certeza de certas verdades de uma maneira dedutível, porem metodológica, na certeza de que elas corroboram com nossas idéias inatas, pois sendo provado a existência de Deus, a que tudo sustenta como verdade das coisas apreendidas pela mente ,um processo subjetivo para compreender a inteligibilidade das coisas, Descartes obtém sucesso como numa circularidade que culminaria nos próprios entes matemáticos e de sua certeza, criando um problema para o ceticismo filosófico tanto quanto para o irracionalismo, mas alavancando os métodos científicos a partir de então.
Como percebemos, a partir de uma leitura minha, muito do que se preconiza em nossas ciências, como as cosmológicas, parecem aos cientistas premissas tão certas mesmo sendo apriorísticas, como quando se trata de teorias de causalidades e das teorias finais, que fogem aos sentidos humanos e de nossa tecnologia, portanto arrisco dizer que isso se faz através de uma possibilidade de conhecimento intuitivo, já que Descarte afirmava que seria dada ao ser humano a possibilidade das coisas, não havendo “coisa-em-si” (minha leitura) ao menos ao que é inteligível, e sem a prova ontológica da existência de Deus, Descartes seria fadado ao “solipsismo” da existência de tudo somente na mente humana.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Dos fundamentos de Platão, da razão e pré-socráticos - Osvaldo


Penso que é interessante salientar que independente de visões "pessoais" como o ceticismo, materialismo, idealismo, racionalismo, ou até mesmo o empirismo, ou outra posição filosófica pertinente a cada um de nós e que foram desdobradas ao longo dos séculos,estas questões do conhecimento, da "gnose", da epistemologia, são obliteradas em muitos compêndios da filosofia contemporânea que execram as proposições metafísicas que, a saber, tentam dar sustento para as teorias que contrapõem o ceticismo filosófico ou o relativismo infundado, então de fato este é um pilar muito sólido para a ciência filosófica enquanto indagação de tudo.Quando não muito, penso que tal síntese, a partir de Parmênides e de Heráclito, são úteis para apagar as chamas do "edifício" do conhecimento em seu "não entendimento".
Penso que de fato Heráclito e Parmênides, grosso modo, encabeçam estas questões que renasceram na filosofia moderna, tendo perpassado inclusive Platão, este que por sua vez mais se preocupou com a questão do conhecimento que, por assim dizer, se inicia com ambos pré-socráticos, e que deixaram certos "problemas teóricos" a serem resolvidos, os quais não eram ingressos na dialética Socrática dada a natureza "peculiar" deste filosofar.
Claro que em uma primeira postagem como esta não poderei discorrer de forma concisa acerca de alguns desdobramentos abrangentes, mas de início e em uma primeira instância, se faz mister mencionar que para Platão, as questões deixadas por Parmênides e Heráclito podem ser juntadas com as dos sofistas e seus peculiares relativismos que detonavam outra "dor de cabeça" para a filosofia. Questão esta também retomada na filosofia moderna.
Aqui minha intenção é apenas salientar a importância da historia da filosofia e os verdadeiros cernes do conhecimento, postulados hoje como "passado", portanto não é intenção minha sair inteiramente do contexto antigo.
Bem, a princípio penso que Platão via em Heráclito uma "certeza", ou no mínimo uma indagação, no que diz respeito ao mundo sensível, da instabilidade e mobilidade,o "devir",ao passo que em Parmênides, Platão faz correspondência com o mundo das idéias, o inteligível, cuja característica é a imutabilidade e estabilidade. Decorrendo disto, penso que Platão faz uma tentativa de "sintetizar" os dois pré-socráticos.
Penso que é de conhecimento de todos que Platão concebe a existência do mundo metafísico das idéias, e esta divisão metafísica da realidade esta na alegoria da caverna, divisão entre o mundo inteligível e o mundo sensível, que inextricavelmente está atrelado às proposições de Heráclito e Parmênides, isto é, do transitório e do imutável.
De fato Heráclito, a meu ver, abre uma tremenda brecha para o relativismo.
Penso que o nada seja, a princípio, ausência de alguma coisa, ou aos nossos sentidos que capturam a realidade como se apresenta. As formas dicotômicas do ser e não ser, e este assunto foi recobrado posteriormente, em Platão e outros filósofos da modernidade, como Descartes, Locke, Hume e Kant, que se preocuparam veementemente com as questões do conhecimento, ou seja, seria este "conhecimento" somente apriorístico, isto é, como é dado de acordo com nossos sentidos, ou ele seria de forma inteligível? Ou uma mescla de ambos?
Parmênides foi o primeiro a pensar que o mundo percebido por nossos sentidos é um mundo de ilusão, aparências (e não há nada aqui de debates com as filosofias orientais). Ele também contrapôs a proposição de mutabilidade, isto é, a aparência sensível das coisas da natureza não possui a realidade (isto nos remete a Platão).
Sendo Parmênides o primeiro a contrapor o ser ao não ser, e o não ser que não é, fica claro, assim penso, que o racionalismo começa a tomar grande fôlego, e posteriormente algo análogo à isto é feito no projeto de Descartes, ou seja, ele assegurou a veracidade e integridade do mundo lá fora com o argumento ontológico para a existência de Deus, que asseguraria idéias eternas e inatas, as "reminiscências" de Platão (estas não são mutáveis), advindas da razão, como a exemplo da matemática, imutável, inteligível, entes que "são"!
Penso que as premissas distintas entre Parmênides e Heráclito estão, a priori, bem sintetizadas, tendo em vista suas linhas mestras e axiomáticas.
No que tange respectivas contribuições ao desdobramento filosófico no que concerne a posteridade de ambos, é característico os fundamentos da filosofia de Platão tendo como base as premissas anteriores destes que forma pilares da filosofia grega, transpassando o período clássico, helênico, medieval, até nossa contemporaneidade, em especial ao fato das proposições que se desdobraram em ontologia, metafísica e, arrisco dizer, uma leitura “antropológica” dados os “vieses cognitivos” de conceitos vistos anteriormente em Parmênides, que indiretamente são abordados nos vieses sofistas, mas obviamente penso que estes últimos não beberam daquela fonte, mas sim haveria um “precedente”.
A saber, Platão deveria, assim como Kant posteriormente o fez em seu idealismo e critica da razão, estabilizar este incêndio provocado por vieses distintos dos dois pré-socráticos. Pois é sabido que Platão não tolerava os argumentos de tal “relatividade” ou perene transformação do conhecimento , que culminaria impreterivelmente em um ceticismo endêmico.
Para Platão o devir só poderia estar situado no mundo sensível, das aparências, enquanto que a perene idéia das coisas permanentes, me perdoem a redundância, só poderia se situar com a inteligibilidade do mundo das idéias perfeitas e que, de acordo com nossa apostila, fundiria o que chamaríamos de metafísica.
Assim sendo, se Platão hoje é denominado como “príncipe” da filosofia, este também teve, além das contribuições da dialética ascendente de Sócrates, pilares sólidos para fundamentar sua filosofia, advindos dos pré-socráticos, que também isto faz se figurar uma dialética da própria historia da filosofia.

domingo, 1 de agosto de 2010

Da razão lógica e metafísica- Osvaldo


Em principio de conversa, se realmente acreditássemos no caos, estaríamos loucos.
Toda forma de “ordenação” à sua volta, incluindo sua própria vida, é nata de uma “ordem”, mesmo que inconsciente.
Como lhe disse, o caos pode ser social e não acerca do “sentido” das coisas. A forma como o homem interpreta seu “arredor”, dentro de uma subjetividade, é díspar do outro homem, mas há certezas impares que norteiam argumentos contra o sentido “caótico” das coisas como elas são.
Há um bom filme para você assistir que se chama “Quem somos nós”, uma releitura que aborda ciência, metafísica, física quântica e energia perene em nosso universo, e para o observador mais atento às sutilezas, verá que por detrás desta “metafísica” há de fato uma ordenação em nosso universo que apenas foge aos olhos do ser humano, desde o macro, até o micro das partículas subatômicas.
Como lhe havia dito anteriormente, o homem, nós observadores, não temos noção da complexidade de tudo que nos cerca, percebemos apenas fragmentos de uma realidade que múltipla, de certa forma “desorganizada ou caótica”, mas que se contém em si.
O problema do niilismo é, a renúncia à sociedade hedonista, ou meramente um ressentimento pela vida, poderia melhor simplificar esta questão como a “filosofia do avestruz”, que simplesmente enfia a cabeça no buraco na terra como se “apaziguasse” toda confluência contraditória externa a si mesmo, mas isto seria também uma ilusão aos fatos evidentes em nossas vidas.
Alguém se qualificar isto ou aquilo, em minha opinião, mesmo sendo esta qualificação de desordem, ordem, acaso, determinismo, inatismo, empirismo, caos, ainda apela para uma abordagem peculiar mediante a vida, mas não passa de uma mera abordagem acerca do desconhecimento de si mesmo e de tudo.
O fato de não podermos conceber o incognoscível por uma questão de “intangibilidade empírica” não pressupõe que, embora seja algo árduo de se realizar, que devemos conceber em contrapartida um argumento de ceticismo acerca da irracionalidade do “ser-no-mundo”, como figurava existencialistas como Heidegger, Camus ou Sartre, isto é, em ultima instância, é uma proposição que atendia e sempre atendeu a diversidade subjetiva do ser humano, tanto quanto outras proposições filosóficas, dentre outras que abrem um leque maior de possibilidades de indagações como a metafísica, e que não se encerram em um irracionalismo perene acerca das coisas ou mesmo não comungam com o fato pertinente do irracionalismo de que as coisas sejam tidas como elas simplesmente se apresentam, mesmo porque a partir deste pressuposto materialista, como muitos filósofos da contemporaneidade apregoam, nada é oferecido como propostas na maioria das vezes, mas tão somente o diagnostico idiossincrático da ação do homem.
Nas confluências de valores múltiplos existentes por aí afora, é natural que isto esteja inserido em uma questão de relativismo, que hoje é levado à extrema concepção de valores que atendem à exclusividade subjetiva, ora do senso comum, da banalização, ora das “leis” autônomas que quem as professam, mas de forma um tanto quanto inexorável em sociedade, nunca um valor “próprio” ou pensamento próprio serão aqueles diferentes do que já existem lá fora, pois como em uma interconectividade de uma malha, bem explicado por Jung, pensamos quase que de forma coletiva, e nada originalmente.
Sartre, em sua obra “ O existencialismo é um humanismo”, deixou claro que o simples fato da existência preceder a essência, ou seja, não há uma causa anterior à nossa, nem deidades nem Deus único, e portanto o homem deve se criar a cada dia mediante o “absurdo” , segundo Camus, ou do “Nada”, segundo ele mesmo, e que como somos uma “malha” de seres que validam a existência através do observador e observado, ou seja, o outrem, há ainda nisto tudo um elemento de humanismo, que é uma tênue linha entre a total desordem do ceticismo caótico e da organização social, grosso modo.
Em ultima analise, poderemos então citar a irracionalidade de Schopenhauer, com sua metafísica da vontade, sendo esta a “aniquiladora” do próprio homem num desejo irracional de destruir a si própria também, salvo o desejo de perpetuar-se. Convenhamos que o velho Schopenhauer muito contribuiu para o desenvolvimento de muitas outras filosofias, em especial o resgate de algumas questões orientais como “ilusão” e também sua obra singular “A metafísica do Belo”. Mas em contrapartida Schopenhauer foi também um estopim, salvo Nietzsche e Freud, para o ressentimento de outras filosofias, sem juízo de valores algum aqui ao fato de eu expor este comentário.
Posto isto, penso que apenas algumas “verdades” podem ser postas à mesa desta discussão, que são as fabulosas e incognoscíveis formas de nosso cosmos, tanto quanto da natureza das coisas e a do próprio homem, bem mais do que a simples “morosidade” intelectual da distinção entre o metafísico e o operacional concreto de uma razão despótica e escrava de si mesma ao esquadrinhar a existência como “irracional”. Fato este muito moderno e contemporâneo, inseridos em uma primazia dos sentidos que, como bem sabemos, nos enganam.
De fato o homem cria para si próprio as mais nefastas mazelas que o atormentam, sendo ele seu próprio carrasco, criando e impondo seus próprios medos aos demais como a si mesmo.
A meu ver, mediante a perfeição deste sistema no qual me permite o “assombro filosófico” , a única disparidade está calçada na sociedade humana. Ao mesmo tempo em que eu ou você desejamos nos livrar destas pilherias pueris, também não queremos, e para tal fomentamos teorias de escape para aquilo que nosso cérebro ainda não consegue conceber minimamente, pelo escasso estágio atual de nosso processamento cerebral e má vontade.
Mas em ultima análise, o bom conselho que dou é não se aprofundar em questões existências se isto tudo o levar a um caminho sem volta. Talvez o grande primado da filosofia seria separarmos o bom senso do senso comum, e minimizar o relativismo extremo imposto pela razão e da falsa idéia de livre arbítrio, pois como disse anteriormente, em termos de matéria nem esta estaria, em ultima análise, livre de uma subordinação que foge dos conceitos apriorísticos das ciências, como poderia ser diferente para um ser pensante imerso neste turbilhão de possibilidades infinitas?
Minhas únicas prerrogativas são acerca da não sacralização da razão lógica em detrimento das questões inatas, intuitivas, que acredito, cercadas pela sustentação de uma “apuração detalhada” do que realmente podemos nos basear, advinda de um processo “racional”, que é operação básica do ser humano, pois ele "pensa", assim como talvez lá bem na frente possamos cometer menos erros assombrosos oriundos de nossa precária operação mental e longe das crenças verdadeiras que são de fato deletérias frente ao nosso progresso.
Pensa-se em grande parte de forma errada, sei bem, e sei também que o raciocínio puramente lógico está inextricavelmente atrelado ao ceticismo, ou seja, nesta linearidade binária do pensamento, seja ele “comum” tanto quanto “erudito”, não prevalece nada além da tangibilidade de proposições que são tidas meramente como apriorísticas, ou seja, o homem já tem por certo questões, mesmo que científicas, de pressupostos não “a posteriori”, e isto está analogamente relacionado ao senso comum binário, pois se crê veementemente na tangibilidade das operações mentais,istoé, de seu conteúdo, de forma que um escrutínio por parte dos mais leigos acerca de fatos que englobam um “todo coeso” é descartado em beneficio da obstrução do intelecto.
Sendo assim há apenas uma “descrença” de processos levados a cabo também pela intuição humana, ou mesmo idéias inatas, que de fato estariam “guiando” nossos sentidos, de modo que bem conduzidos, ao tentar chegarmos mais próximos de uma “verdade” que não fosse banalmente relativizada, pois toda o conhecimento parte das idéias para as "coisas", principalmente acerca das questões quantitativas, bem mais do que as qualitativas. Tal procedimento pode ser também extendido para as outras áreas do saber, estas que são aseguradas pelo "bom senso", e nos guiam para o progresso humano.
A metafísica da subjetividade, advinda de um filósofo moderno e racionalista e que foi o estopim para estes temas da mente, deixa claro que o homem “não é um piloto em seu navio”, não é uma mente comandando um barco, mas um todo coeso, a dualidade corpo e mente é puramente metodológica, o mental não ocuparia espaço, e o não mental ocuparia espaço, temas semelhantes são abordados hoje em ramos filosóficos como a filosofia da mente ou mesmo em neurociência.
De modo algum o projeto de Descartes, mal compreendido tanto quanto os escritos de Nietzsche, ao pressupor que o Francês foi criador desta contemporânea “racionalidade” despótica e lógica, está relacionado ao ceticismo ou à banalização do saber. Poderia se culpar em enorme escala o relativismo extremado para a banalização do senso comum, coisa que pode ser varrida pelo iluminismo da razão bem direcionada.
Deve-se de fato aqui citar a filosofia moderna cartesiana como precursora desta discussão, pois como bem sabemos quase todas as ciências advêm da filosofia, e o projeto cartesiano, ao menos no campo filosófico estrito, isto é, metafísico, não era o de “entender o homem”. No campo metafísico seu projeto era o de mostrar a inconsistência de posições relativistas e, enfim, céticas. Um projeto daquele que o próprio Platão se fez porta-voz, depois de Parmênides e Heráclito: o de encontrar e bloquear mecanismos pelos quais nós nos enganamos e tomamos o falso pelo verdadeiro.
Assim, o projeto cartesiano é no âmbito da verdade. Mas, a partir dele, e incentivado por ele, as pesquisas filosóficas não serão somente sobre a verdade, mas também sobre o “eu”. A certeza é alguma coisa do âmbito subjetivo, e o trabalho dos filósofos será o de mostrar que o “eu” que apresentam é universal e, ao mesmo tempo, não uma figura estranha aos homens.
A saber, o senso comum foi algo tido como pioneiro pelos sofistas, e se para mim eu sou a medida de todas as coisas, eu também então poderei não ser a medida de todas as coisas, em um raciocínio binário, mas o primeiro argumento é o que de fato prevalece neste emaranhado de relativismos pueris, nos quais a banalização do sujeito tanto quanto do conceito de verdade foram engendrados.
Em última instância, é natural dos homens complicarem aquilo que é tão simples, uma alusão aqui à "Navalha de Occan", só que desta vez não em um contexto de ceticismo ou reducionismo.

domingo, 11 de julho de 2010

Uma visão acerca de Platão - Osvaldo


Se percebermos bem, alguns “espíritos” com embasamento filosófico mais aprofundado, distanciado do senso comum, perceberão que o ideal de uma sociedade diversa, e analogamente diversa do estado de consciência evolutiva do ser humano atual, se dá no imaginário, dada a incapacidade do homem de perpretar algo “coeso” e embasado em premissas humanísticas que englobem em seu bojo todos sem exceção.
Posso, penso eu, aqui também citar Kant no que tange a incognoscibilidade da “coisa-em-si”, este que foi um dos últimos metafísicos da era moderna a discorrer em sua proposição, acima de tudo, a “limitação” do conhecimento humano. Se assim é, não creio que a proposição platônica seja de todo fora de uma interpretação das “causas finais”, ou ao menos no que concerne aquilo em que se situa nos ângulos desfocados do ser humano e sua inaptidão a se esforçar em ser melhor. Não obstante, tampouco as filosofias contemporâneas possuem algo a propor além de um diagnóstico de nossas idiossincrasias sociais.
Em uma antítese às questões metafísicas “supra-sensíveis” que propõem muitas filosofias, nos deparamos com aquelas que igualmente as “escatologias”, nos remetem a um niilismo ressentido advindas do ceticismo filosófico perene. Naturalmente temos como síntese disto a exacerbação da inexorabilidade do “relativismo” absoluto, o qual não encontra um balizador inicial nem para nos livrarmos do mau uso da razão, esta que é tão “vivificada” hoje em dia e que nos remete novamente à “touca de pensar” de Kant, talvez aqui o homem usando uma “pseudo-razão” e minimamente tendo ciência dos “filtros” kantianos e sua metafísica , unindo as escolas do racionalismo Frances de Descartes e o empirismo Britânico de David Hume, tentativa que pretendia dar um “basta” nesta guerra acerca do “conhecimento” humano.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Do mau uso da razão - Osvaldo


Aqui encontramos vários argumentos contra o “projeto racionalista”, e gostaria de salientar que o próprio termo “racionalismo” se perde ao longo do tempo com o embasamento apenas do “operacional-concreto”, que se diga de passagem não é a causa primeira do movimento da razão.
Podemos nos portar ao período socrático no que concerne os primeiros ensaios dialéticos de uma época pós “cosmocentrista”, voltando-se ao homem mais do que as causas primeiras ou finais. Mesmo em Platão ou Aristóteles temos argumentos que viabilizam o bom uso da razão, e daí, em Teeteto, já encontramos as primeiras evidencias de um problema de ordem epistemológica, do acesso ao conhecimento das coisas, que era diametralmente oposto aos argumentos dos sofistas, como é do saber de todos.
Vamos dividir aqui as filosofias e usar de certo “silogismo” imbuído neste parecer: em termos de conhecimento, sabe-se, de acordo com os primeiros estudos antropológicos em sua devida época, que os ocidentais estavam “atrasados” tanto em pressupostos científicos como sociais, e que os pré socráticos beberam da fonte de algumas regiões asiáticas para a formulação dos primeiros pensamentos fora do escopo mítico da antiga Grécia, fato este alardeado por Nietzsche ao culpar Sócrates pela indução da filosofia “racionalista”, mas como filosofia é algo a ser estudado de forma profunda, veremos que Platão e Aristóteles nem foram tão racionais assim, como em uma tentativa de unir a metafísica com a ciência e os costumes sociais. Na época, os sofistas foram os primeiros a dar os indícios de “pragmatismo”, “utilitarismo”, “hedonismo” e “materialismo”, sobremaneira por parte daqueles que eram os “maus” sofistas, que a saber, não possuía uma ética advinda dos grandes mestres sofistas, diferenciando de Sócrates apenas no quesito “pagamento”.
Muito bem, é preciso ser de certa forma “circular” para irmos mais adiante.
Como todos sabem, com advento cristão, unido ao neoplatonismo de Plotino, surgem as primeiras igrejas, o resto é história, de modo que a patrística era totalmente atrelado ao platonismo, de uma forma que lhe convinha, obviamente, recheada de elementos que nem Platão conhecia, e logo mais, na escolástica, Aquino tentou fazer algo melhor, atribuindo a fé com a filosofia de Aristóteles, de modo que toda a ciência fosse advinda do teocentrismo como o próprio misticismo fosse dado com um respaldo “racional”.
Oras, é sabido que Bacon, Galileu, e outros deram os primeiros passos ao movimento chamado empirismo, como até hoje se baseia nossa ciência, e que através da razão ,e não de um poder dito “atemporal” da igreja, deveríamos conduzir nossas “verdades” e descobertas.
Resumindo este período, que faz alusão à Grécia antiga nos termos de real “conhecimento”, começava a aflorar certo “ceticismo” filosófico, que mais tarde fora endossado por David Hume. Mas certo sujeito chamado Descartes, que também é de certa forma mal interpretado, tem a oportunidade de viajar por lugares diferentes e constatar que costumes são diferentes em vários lugares, culturas e crenças eram constituintes de peculiaridades diversas dada certa região. Descartes propôs então, em suma, o maior dos ceticismos dos ceticismos em sua duvida hiperbólica, duvidando do conhecimento, de si mesmo, do mundo afora, e inclusive de Deus. Mas em seu “cogito” ele descobre que ciência e conhecimento também se dão por “dedução” e não somente por “indução” (mais tarde aprimorado por Kant), mas o melhor disto é sua tentativa de “limpeza” daquilo que é tido como senso comum, através da confusão, demolição e reconstrução, e para tal ele desenvolve uma metodologia.
Diria que a razão hoje é pouco lapidada, como diria Aristóteles, o homem é um caniço pensante.
Da razão não podemos escapar, do fato de sermos pensantes, jamais. O erro da filosofia ocidental, muito diversa das orientais, é o fato do homem sempre estar procurando uma confluência de forças externas a ele mesmo, se nossas condições atuais de sobrevivência se encontram de formas repletas de idiossincrasias, é pelo fato do próprio homem assim querer, e pelo fato de tantos “compartimentos” criados por nos mesmos em ciência, sociologia, política, religiões, e psicologia. A única forma “racional” que possuímos de conceber as coisas é “kantiana”, ou seja, categorizadas ao extremo, como se fossemos desmembrados numa alucinante tentativa hercúlea de nos recompormos em integridade novamente.
No que tange os grandes racionalistas, me simpatizo com as proposições de Descartes e Espinosa, este último sintetizou de forma singular as causas do sofrimento humano a partir do momento em que este passa a obliterar os indícios da própria natureza de forma que esta “desunião” passa a proporcionar sofrimento, e isto de certa forma corrobora com Nietzsche quando diz que perdemos o bom lado “dionisíaco” com a supremacia da razão em favor do “apolíneo”. Mas talvez o bigode também estava errado ao criticar Sócrates, pois parafraseando a dialética histórica, é natural ao homem cada vez mais “ciência” de si mesmo, e isto novamente só é dado pelo uso da razão, e voltando novamente ao bigode, este niilismo só pode esgotar por si mesmo, como em um ciclo natural de uma “virose”.
Vale ressaltar que se falamos em “projeto racionalista”, em filosofia nos remetemos aos grandes racionalistas, como Descartes , Espinosa e Leibniz, incluiria aqui Pascal. A saber, Descartes, em seu brilhante argumento ontológico, provou racionalmente a existência de Deus. Espinosa citou Deus ou natureza, e Pascal disse que o “coração” tem razoes que a própria razão desconhece. Estes filósofos talvez faziam parte ainda de uma leva que uniam, como no oriente longínquo, ciência com fé, natureza com Deus, sentimentos com razão. Mas como é peculiar da raça humana, dicotomias e polaridades são extremadas.
Este terreno árido é como a teoria do “cérebro em uma cuba”, ou da própria matrix, que nos remete novamente a Descartes, este que foi enfaticamente contra o ceticismo filosófico que faz com que neste terreno árido nada germine, a não ser ressentimentos contra a própria espécie e vida. O projeto de Descartes, este que influenciou veementemente Espinosa, tratou apenas do racionalismo enquanto a batalha do terceiro excluído, tanto que sua “ética” proposta era temporal, e não universal, tendo em vista o que depois passamos a compreender como “antropologia”. Mas ele também professava que a razão, após um processo de “refinamento”, poderia ser nosso farol neste turbilhão de vendavais ocidentais, no qual apenas seu bom uso poderia combater a massificação do relativismo radical, que desune a todos nas crenças do senso comum.
Percebo qual é o verdadeiro teor da crítica que concerne o dito “racionalismo”, que em outras palavras poderia ser citado como “reducionismo”. A saber, ou ao menos de acordo com uma visão um tanto quanto parcial em ralação à etimologia da palavra sendo citada e de acordo com um “teor” filosófico, dada sua origem, o que a principio a dúvida hiperbólica de Descartes, grosso modo, nos aponta em contrapartida ao sendo comum, é o combate às superstições e falácias, ou seja, o que seria de fato “perene”, em contraposição ao ceticismo empirista, em relação à algumas “verdades” a conduzir nossa razão, dado o fato de que somos constituídos de culturas diferentes tanto quanto “criações” diferenciadas ao longo de nossas vidas.
De certo Descartes tentou resgatar as questões “inatas” do raciocínio humano, em contraposição ao fato cético de nada podemos conhecer.
Embora nossa ciência seja calcada no empirismo, é evidente que as ciências “cosmológicas” atua com bases dedutivas ao tentarem explicar as teorias de causas finais, ou seja, através da “intuição”, apesar de muitos dizerem que isto nada tem de intuitivo, mas sim meramente o fato “kantiano” das categorizações de nossas mentes que viabilizam uma forma “pseudo-intuitiva” de fatores empíricos.
Oras, em se tratando de questões teóricas como das causas finais em cosmologia, ou mesmo da existência de Deus, é notório o fato em que de acordo com a observação humana, certas teorias, segundo o astrofísico Marcelo Gleiser em seu novo livro, seria impossível chegarmos a um consenso acerca destes assuntos de maior complexidade, como massa escura ou mesmo Deus. O que penso acerca disto é que há aqui, apenas separado por uma tênue linha, uma questão de “fé”, mesmo por parte dos cientistas ao lidar com certas teorias.
Concordo com o fato em que, ao menos no que tange o pensamento ocidental e da própria filosofia “contemporânea”, e não a “moderna”, é que no advento “racional-puramente-cientifico” fomos reduzidos a meras maquinas de pensar, com as explanações “químico-biologicas-mecanicistas” de nosso ser, que em comunhão com o próprio reducionismo ontológico da “ontologia”, fez com que o homem se “compartimentalizasse” cada vez mais em seguimentos díspares, a partir disto, desta “perda” do sentido holístico do ser tão amplamente discutido no oriente, o homem vê a necessidade de criar as ciências psicológicas, como bem sabidas após Schopenhauer e Nietzsche.
Querendo ainda mergulhar mais fundo na questão, não haveria aqui algo de "endêmico" em algumas criticas no que concerne a "razão" pela própria razão...ou seja, destituindo os clássicos argumentos racionais desde Sócrates, o que poderíamos "colocar" no lugar?
Ao que me parece, tudo culmina em um sentido evolutivo do próprio homem, sendo este ou não dotado do "bom uso” da razão ou o que ela de fato significaria hoje, pois desde as formas primitivas do ser humano, quando o cérebro ainda não tinha toda sua formação atual, me parece que Darwin não se exclui disto em suas teorias tampouco.
Penso que a grande questão é de fato social, humana, idiossincraticamente gerada pelo próprio homem com suas façanhas pueris.
Jung faz uma longa explanação acerca da “sombra” individual, analogamente à coletiva, geradas por nós mesmos, e que talvez nenhum filosofo tenha incluído em seu bojo erudito.
Kant talvez tenha acertado em cheio no que diz respeito a “diversas formas de observações”, isto é uma própria observação minha acerca do autor também. Descartes já havia se identificado como talvez um filósofo “pluralistas”,antes do advento das ciências antropológicas,ao não ser inserido nos limites da filosofia continental, fato este que foi suscitado quando o próprio ingressou nas tropas de Mauricio de Nassau e passou a conhecer outras culturas e costumes, embora de forma um tanto quanto escassa, dado as dificuldades de transporte da época. Descartes foi o famoso filosofo “mascarado”, por não poder dizer de tudo que pensava naquela sociedade de seu tempo.
A única proposição, em filosofia clássica, de um iminente “caos” universal, incluindo das possibilidades de “conhecimento” humano, seria o ceticismo absoluto de David Hume, este que também quase avassala o método dedutivo tanto quanto o indutivo, formas bem conhecidas de como hoje praticamos a nossa ciência e investigação.
Posto isto, não me parece que é mera “ilusão de ótica”, ou o fato de concebermos tempo e espaço distorcidos e de forma linear, que uma regularidade e ordenação das coisas como são dadas no universo não existam. Caso contrário, apresento-lhes a teoria do cérebro em uma cuba, ou mesmo do gênio maligno de Descartes, antes de suas conclusões finais, para talvez reforçar o argumento “ilusório” a la Matrix no que concerne uma tangibilidade perniciosa ou falaciosa daquilo apreendido por nossas mentes.
Num argumento filosófico anti-ceticismo, penso que em se tratando de assuntos macro, estes são perenes e de forma inexoravel independentes de nossas observações que, no micro, se esvanecem no “lambuzar” deste novo doce que é o advento da razão que, junto com filósofos apenas “ocidentais” demais, se perdem ainda ao identificar erros, mas nada propor para a correção.
Tenho muito claro para mim que filosofia ainda é clássica, e que seus desdobramentos se converteram em áreas como sociologia, antropologia e psicologia, dentre outras.
Voltando para a razão, não vejo de que outra forma o homem poderia deixar de usar sua ferramenta “cerebral”, já que penso que “pensar” não é apenas um exercício da raça humana, mas também uma necessidade “inesgotável.
Uma ala mais radical da filosofia culparia os gregos desde Sócrates para esta atual culminação, mas o erro é inerente à espécie, e talvez errar não seja desumano a partir deste principio, pois os mesmos se esquecem de uma substancial diferenciação de culturas e relativismos, e que o ser humano foi compartimentalizado em “setores”, aí sim podemos culpar a idolatria da razão, que enaltece tanto o senso comum quanto as imbecilidades advindas do mau uso da própria, ou mesmo talvez para onde caminham os futuros desafios da filosofia, que talvez seja uma batalha homérica contra o patamar cientifico mais alto que fará que o ser humano se oblitere de sua própria condição humana frente a clonagens e outras tecnologias avançadas, ao brincar simplesmente de “criadores”.
A metafísica filosófica ocidental é o que o pensamento “integrado” é para o oriente, a primeira se dá numa tentativa “racional” de compreender a incognoscibilidade de tudo que nos rodeia, portanto ainda ela é meramente “metafísica”, ao passo que a segunda, inexoravelmente, se valida em seu argumento por uma metafísica perene, ou seja, da necessidade da existência de Deus, Buda, Krishna, ou Oxalá, por exemplo.
Penso que, dentro do escopo acima, não há uma divisão entre razão e fé para os ocidentais, nós já integramos isto na razão, ou se preferir, de forma institucionalizada, e poderíamos voltar até na “sombra coletiva” de Jung.
Mas o “mal” ainda sempre está relacionado às questões falaciosas, crendices, preconceitos, intolerâncias ou mesmo no argumento do terceiro excluído e redicionismo ontológico, e se fossemos apenas “deletar” isto da atualidade que vivemos, retrocederíamos a um ponto ainda da formação do homem e em que este não tinha o “assombro” mediante sua própria existência. Arrisco dizer que isto é latente, e não induzido, porém contornável, com muito esforço, mas contornável.
O argumento do ceticismo filosófico, que também tira os créditos da razão enquanto formas de conhecimento, também é falho, diria inclusive que é um contra-senso para as investigações ontológicas , que também se inserem na metafísica. Somente não façamos confusão entre Ceticismo clássico e ceticismo “metódico”, adotado por Descartes para Eliminar em sua época crenças infantilizadas ou mesmo as advindas do senso comum.
Usar bem a razão não é tão mal assim, talvez o homem fosse bem menos “caniço”, não fosse por suas emoções de resquícios primitivos, as quais ainda o fazem esquecer que a era da “sobrevivência” em si já passou, mas seus resquícios permanecem num córtex ainda a lapidar.
A lógica clássica ou a razão não fomenta as idiossincrasias sociais e psicológicas que encontrarmos hoje, pois na época dos gregos antigos nada se sabia de estudos do cérebro humano, ainda não existia Freud nem Jung, tampouco a neurociência.
A questão é que filosofia, a partir de pressupostos oriundos apenas de silogismo aristotélicos, de puro relativismo sofista, ou meramente de fundamentados da razão pura, obviamente não explica a contraparte de todo argumento outrora refutado, para tal adentramos nas questões de ordem epistemológicas, que é um verdadeiro edifício em chamas da filosofia.
A saber, as implicações céticas da filosofia empirista, em contrapartida ao projeto de Descartes ou de outros racionalistas como Espinosa ou Leibniz, também perde seu valor nas questões de neurociência, de modo que “intuição” e “mente” é ainda um assunto a ser escrutinado mediante os próprios solavancos da ciência ainda tida hoje como “empírica”.
Em se tratando de linguagem ,ou outra filosofia qualquer que se atenha apenas nas implicações deste nosso orbe e respectivos viventes em sociedade, é notório que há de se fazer uma releitura dos primeiros na Grécia antiga que assim o professavam, a saber, os sofistas. (não se lê aqui nada de pejorativo à distorção etimológica, tampouco juízo de valores).
Desta forma, hoje há o que se denomina filosofia voltada às origens, daquela que se inicia na tríade Sócrates, Platão e Aristóteles, num sentido amplo desta ciência, e veementemente praticado pelos dois últimos citados, tanto que hoje há um movimento para a “desbanalização” da metafísica, esta que é subjugada por muitos por se tratar de “fantasias” ou meramente “new age”. Equivoco total, e para tal deve-se entrar a fundo no “core” da questão.
Uma inversão de conceitos aqui também é possível, ou seja, salvo Nietsche, que apenas se “deduz” um ceticismo de sua parte acerca de assuntos pertinentes à “cosmologia”, pois este estava obviamente interessado com as idiossincrasias humanas em um circulo vicioso juntamente com a escolástica, todos os filósofos que perpetraram um ceticismo a mil ventos poderiam estar “ressentidos” com a falta de respostas para muitas indagações “insondáveis”, gerando- se desta forma o pessimismo filosófico, ou seja, há filosofias diversas para todos os gostos, mas assuntos pertinentes à metafísica, às causas primeiras e finais , ainda fazem parte de um escopo que poucos ousam volitar, em nome apenas de lógicas de linguagens ou de uma razão que é precoce, mal entrada na era do “homo sapiens”, diverso de outras épocas em que nosso aparelho cerebral tampouco tinha a formação atual.
A questão muda de forma quando aliamos filosofia e cosmologia, ou mesmo “astronomia”, por assim dizer, pelo fato de tantas teorias apriorísticas que tentam desvelar as “causas finais” .
Oras, vemos aqui ciência fazendo um papel metafísico, daquilo que ela própria não tem a capacidade tecnológica para “decifrar”, teorizando portanto em suposições a priori acerca do infinito, talvez um “sendo comum” dentre os cientistas, no que se refere este tópico.
O que quero dizer, portanto, é que certos assuntos não são passiveis de serem extinguidos através da “lógica” do homem, eles serão para sempre pertinentes enquanto houver seres pensantes.
Nietzsche explica a morte de Deus não de forma “ipsis litteris” , mas como um movimento engendrado pelo próprio homem à luz da razão, esta que ele também critica. Um movimento no qual um ser humano, ao invés de rezar para seu deus ou para seu santo para passar uma dor de cabeça, irá desta vez ao médico (mínimo exemplo), e que o hedonismo é o movimento atual que substitui Deus, mas em contrapartida, ao mesmo tempo em que o homem quer algo, ele não quer, ou seja, o ser humano no fundo tem medo do “incognoscível”, e isto, inexoravelmente, é algo “dedutível” e não ‘induzível”.Para quem pratica filosofia, e não é apenas um “admirador” de certas filosofias, ainda o “assombro” mediante sua própria natureza e da natureza externa, até o cosmos, faz parte integrante do bojo filosófico “in natura”, e não de seus apêndices como antropologia, sociologia ou mesmo psicologia, e por fim, a própria ciência.
Talvez sobre para os céticos filosóficos apenas o materialismo, algo que implica apenas nossas preocupações em sociedade, e em ultima instância o anarquismo filosófico, mas aí entraríamos em outra contradição, pois apenas na visão de David Hume o amanhã não é “assegurado”, mas esta proposição já dura muito tempo frente a bilhões de anos de um universo “sempre” ordenado. A “razão” nada pode esclarecer por definitivo. Embora em filosofia ainda prevaleça apenas os argumentos mais “plausíveis” , está fadada à metafísica e à epistemologia questões mais acaloradas, e filosofia propriamente dita não é nada sem estas áreas. Hoje, a razão tem suas próprias idiossincrasias, a saber, seu uso em prol do hedonismo desenfreado e da condição humana.