segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Dos paradoxos da fé e da temporalidade mediante a existência. Dos lampejos do Absurdo e do sentimento de Angústia - Osvaldo



(A imagem acima faz alusão ao mito de Sísifo,que também é um ensaio filosófico de Albert Camus, no qual ele introduz a filosofia do absurdo: o homem fútil em busca de sentido, unidade e clareza no rosto de um mundo ininteligível desprovido de Deus e eternidade. A última parte deste ensaio remete o leitor a Sísifo, personagem da mitologia grega que fora condenado a repetir a mesma tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, só para vê-la rolar para baixo novamente, toda vez, enquanto viver...)


Não há exageros em dizer que toda humanidade vive em uma "casca de ovo" com toda sua limitação mental. E também é errado citar que ser existencial é sofrer de “enxaquecas” da insustentável leveza do ser. Papo para encher consultórios que exercem verborragias psicológicas e psiquiátricas. Mas para se ter uma visão “existencial” do mundo é preciso coragem, ousadia, rompimento,e talvez “saúde mental”, por mais redundante ou circular que isto possa soar.
De tempos já longínquos fé e razão parecem não se misturar, mesmo após tentativas da racionalização da fé através de dogmas perpetrados por Agostinho ou Aquino no cristianismo, ou mesmo do argumento ontológico de Descartes que culminaria na existência de Deus, sendo que sua impossibilidade não poderia ser “cogitada” . Não obstante, há certa questão a ser observada pelos doutos da igreja pela forma que estes tentaram unir a fé à razão, em Agostinho temos a premissa de “crer para entender”, e em Aquino o fato de “compreendermos para crer”
Controvérsias à parte, eu cito estes dois pensadores, ou teólogos da igreja católica, pelo fato de ambos tentarem “sistematizar e/ou racionalizar” aquilo que muitos ainda hoje apenas permanecem “tateando no escuro”, dado o fato que a própria metafísica , dentro do escopo epistemológico, seria como um cego a procura de um gato preto dentro de uma sala escura.
Mas também destas ditas “sistematizações” ou tentativas homéricas de trazer a vontade de Deus para um escopo totalmente existencial e paradoxal , como diria o pensamento kierkegaardiano, desembocamos novamente nos paradoxos existenciais que confrontam um almejo pela procura de Deus mediante o “absurdo” da temporalidade e da incognoscibilidade do mesmo, de nossa posição existencial, “ipsis litteris”, desconectada daquilo que seria a fé do homem.
Posto isto, é notório que o existencialismo é uma corrente de pensamento que rompe além de uma década de intelectuais franceses engajados em questões políticas e de guerras inconcebíveis em sua sociedade de então. É muito provável que se nós seres humanos, longe do hábito inexorável de tudo conectar como possíveis juízos analíticos de causa e efeito, e se os absurdos mais “gritantes” como de uma guerra eminente a eclodir, iríamos novamente, e sempre, buscar justificativas para tal ou então repensar a verdadeira condição humana enquanto "contingência".Da eterna fragilidade de um ser circundado de iminentes ameaças a si mesmo, e estas, para além das idiossincrasias perpetradas  pelo próprio homem; daquelas que ainda fogem da compreensão humana e que nos remetam a árdua e convicta noção de nossas impossibilidades de compreensão.
Uma vez que nossa capacidade de raciocínio é por demais limitado, nos defrontaríamos novamente com a necessidade de nos lançar a um “salto de fé” como consolo metafísico ao tentar entender quais os reais desígnios de Deus e a temporalidade e fragilidade de nos seres humanos, seja através de conceitos como “o Mal ontológico, ou de que o homem é eternamente causador de suas próprias idiossincrasias: Eis aí novamente algo circular, o homem e sua mente ao concatenar juízos apriorísticos e/ou a posteriori, dentro de sai própria limitação de causa e efeito (causalidade).
Artigos de fé não são somente aqueles relacionados às religiões, mas também daquilo que está cercado de inexorabilidade no que tange conceitos de causalidade e senso comum. Não obstante, a fé, seja ela qual for, é uma instância como de um “vôo cego” rumo à certeza “titubeante” de que nossa meta final é um encontro com o divino.
Dentro deste patamar, o homem passa por determinadas fases em sua vida, algumas nas quais experimenta apenas aquilo que proporciona um imediatismo prazeroso, ou mesmo uma autoconsciência de valores hedonistas ou niilistas, mas a imagem do divino esta sempre escondida no final do túnel se sua jornada.
Impreterivelmente, a questão de fé é um “salto” rumo ao desconhecido, àquilo que jamais poderá estar inserido, via racional, dentro deste véu que nos separa da amplitude e complexidade da existência. Forma-se desta forma o sentimento quase que “insuportável”, para os mais desavisados e também de certa forma para os calejados, quando da ruptura da casca de ovo, do paradoxo entre nossa finitude (desconhecimento plausível de Deus), e o desejo e vontade de a Deus conhecer e seguir. (Lê-se aqui Deus como qualquer teoria metafísica que assim o aborde).
Faz-se mister portanto citar o fato de que o homem vê na fé e na religiosidade um “mosaico” que lhe direcione a vida, os anseios, e não somente algo pejorativo como uma “muleta” metafísica. Para o crente, a necessidade de entrega é absoluta, e talvez daí surja as idiossincrasias pueris perpetradas pelas religiões do mundo, numa mescla frenética entre a consciência da temporalidade humana e do desejo de aqui transformar, dentro das díspares possibilidades teológicas, o mundo de Deus.
Desde o racionalismo de Descartes, marco da “voz” da subjetividade e do sujeito cognoscente, muita coisa ainda não mudou acerca de filtrarmos aquilo que deveria ser jogado fora no que diz respeito o homem e sua “irracionalidade”.
Oras, se o crente vê em Deus sua finalidade última, nada justifica nesse mundo que barbáries sejam promovidas por aqueles que professam Deus. Deus do que? Da imperfeição? Seria este Deus igualmente posto em uma escala evolutiva como os humanos e seus valores?
É notório que o tratamento que o homem dá a este assunto é ainda “mitológico”, sendo assim Deus estaria em uma escala antropormofizada de sandices “super-humanas”.
Nota-se disto portanto que para além do paradoxo existencial que separa o homem de seu criador (aqui tratamos de um existencialismo cristão, e não ateu como em Heidegger ou Sartre), a fé foi elevada à uma plataforma que justifique os atos hediondos da burrice humana.
Eu dou parabéns para aquele que de fato guarda a fé para si mesmo e não se justifica, ainda mais a fé em si mesmo, e sou ferrenhamente crítico com aqueles que dizem que é nato do ser humano a disparidade entre Deus e a si próprio.
Nada custa um pouco de fé na própria raça humana, fé em si próprio, ao fortalecer o papel existencial que devemos cumprir de acordo com nossas escolhas e determinações , de nossa responsabilidade mediante o outrem, longe de tentativas de explicar tudo através de um “marco zero” ou das causas finais teleológicas (é assim mesmo que se escreve) para tentar sempre concatenar a causalidade dos eventos e da “contingência” do ser humano.
Àqueles que podem estar pensando agora que isto estaria fadado ao caos, eu responderia que fé não é “freio” humano, e sim motivo para ofuscar a real necessidade do racionalismo que nos compete, não o racionalismo instrumental, mas daquele necessário para tocar a humanidade longe dos “fantasmas” de sua subjetividade ainda adormecida nos contos de fada, daquilo que nos impede de possuirmos, através dos grilhões da punição (sempre implícita no mais belo dos diálogos), que não permitem o florescimento do potencial humano, pois fomos obrigado a acreditar que o homem é defeituoso por excelência.
Defeituoso é este juízo, pois sempre, em se tratando de fé e uso de religião, seremos como aquele eu só “bebe socialmente”.
O existencialismo ensina que a autenticidade do homem jaz na consciência de seu estado temporal, de sua finitude, de suas responsabilidades mediante o outro e da necessidade de um mundo melhor.
Tecnicamente, sob um postulado cético agora de que somos nossos co-autores, é bem vinda a hipótese sartriana da existência precede a essência, e não o contrario, pois isto nos remete à amarga constatação de que o real é aqui e agora, e de que é neste orbe que nossas ações e vontades terão algum valor, bem mais do que digladiar a sangue e verborragias acerca de quem possui as chaves da “cidade de Deus”.
O relativismo extremo também situado na esfera metafísica (das religiões, e não da filosofia), é de grande contribuição para calçar como base nosso relativismo temporal humano, com bela dose de senso comum e de crenças estabelecidas, sempre dissonantes em relação à apreensão de uma ética humana, que não seja aquela somente do imediatismo hedonista/niilista que se conforta a qualquer momento nos braços de uma estatua de um deus que se esconde no fundo do túnel de nossa subjetividade, acessado somente nos momentos de desespero, visão esta muito mecanicista de fé.
Surge disto outra discrepância em que o homem está sujeito, por sua natureza aprioristicamente dita como defeituosa e pouco evoluída, à eterna dança entre o sagrado e o profano. O que afinal de contas seria sagrado e o que de fato seria profano, dentro das limitações e absolutismos teológicos, mesclado com opiniões diversificadas daqueles que em nome de deus professam? Quando não muito, os líderes religiosos usam de seu próprio universo subjetivo para tocar sua manada, e disto tentam transformar em verdades universais para uma platéia de cinco ou seis integrantes. O que dizer então da estupidez de um contingente enorme que segue um ou outro “aloprado” que se calça, de novo, nos “ideais” platônicos como que da verdade, do Bem, Deus, e justa sociedade, jazem em conceitos eternos e excludentes das necessidades pragmáticas da existência.
Isto tudo mostra apenas uma coisa, ou ao menos indica algo: A inautenticidade humana, o sentimento de absurdo mediante o vácuo existencial. Mas será que então fé e religião estão aí para nos consolar?
O sábio Kierkegaard talvez soubesse desta resposta em sua filosofia “in loco”, ou seja, mesmo sendo um cristão, neste caso, a fé seria um “salto” realizado pelo homem rumo ao incognoscível, mas isto não o livraria de ser assolado pelo sentimento de absurdo, ou desespero humano, que sua instância temporal o proporcionava. Posto isto, verificamos que mesmo para os crentes em Deus, há um elemento que paira no ar, a partir da atitude filosófica, de que a intangibilidade divina é um fantasma a assombrar aqueles que refletem acerca da existência enquanto causas primeiras e causas finais.
Para o existencialismo ateu, isto se procede da mesma forma, mas diria que de certa forma mais atenuante, pois não há o elemento divino mais aqui, sendo que a existência sartriana precede a essência, ou seja, o conflito em que Sartre chamava de “Náusea”, que Camus chamou de “Absurdo”, e que Kierkegaard chamou de “Desepero” , se dá em Sartre pela necessidade constante de imprimir em nós mesmos atributos que nos impelem à realizações que justifiquem nossa existência, uma vez que de nada viemos e de nada sabemos acerca de nós mesmos, e que todos somos iguais nesta condição existencial, que para tal não há relativismos que nos separem desta crucial condição humana, grosso modo.
O pensamento é um exercício prazeroso, ainda mais quando este visa ressignificar conceitos outrora tidos como absolutos. E ainda em se tratando da própria fé, nos leva a indagar onde estão contidas nossas crenças dentro de um mosaico multicor das teologias e mitos em que se debruçam os homens. Novamente outro paradoxo se forma: como haver absolutismo dentro do próprio relativismo? Isto só pode ocorrer na mente do homem, que é limitada para a compreensão daquilo que foge ao racional.
Mas que verdade então nos valida? A minha, a sua, ao do outro? Penso que nenhuma, a não ser aquela que seja uníssona e de conformidade para o bem viver em sociedade, segundo os estatutos que regem cada cultura, sob a luz do entendimento e do progresso humano em todas suas diferentes instâncias, mas não daquelas que nos remetem às convenções sociais, pois aí novamente jaz o fantasma do relativismo, este que por sua vez ainda nos afasta de um consenso para aquilo que é igualmente desejado por todos, como questões básicas de subsistência e bom convívio.
Por certo isto só procede à luz da razão, para terror de quem imagina que este mundo é secundário, deixando questões impreteríveis para segundo plano.
Aqui o problema maior reside no fato de abandonarmos nossas aspirações, no agora, para enveredarmos em uma dissonância que compõe a incerteza ou agnosticismo perante o incognoscível.
Oras, aqui não custa nada evidenciarmos fatos meramente hipotéticos ou não, como o fato de nossa desesperança mediante o credo e nossa condição humana.
Como já foi dito, a ausência de probabilidade não significa a probabilidade da ausência, no entanto, dentro deste escopo cria-se uma lacuna imensa para interpretações mil, e uma delas, e a pior, é a necessidade que o homem se impõe a si mesmo de um dogmatismo absoluto que lhe caia como uma luva frente à desesperança e a angústia existencial.
Com o que de fato nos importamos e damos valor em nossas vidas? Dentro de um mundo com um niilismo evidente (não compreende isto quem está imerso nele), nossas mais pueris desaventuras de adolescentes “octogenários” e com uma razão deficiente, faz jus à toda forma de “lembretes” possíveis a nos desviar da verdadeira condição humana, ou seja, como a própria filosofia professa, a capacidade de reflexão humana é primordialmente racional, mas cada vez mais este racionalismo segue rumo ao instrumental humano meramente.
Por que há tantos indivíduos que criticam o homem dentro de sua racionalidade? A resposta é simples: racionalidade é compreendida hoje como um modelo que lança o homem em uma eterna dicotomia mente/emoções.
Por certo o fato de nossas emoções exercerem um papel importante em nós é super válido, mas então por que será que o homem tem a capacidade de raciocinar? Seriam estas emoções de fato “instancias” ontológicas, ou seja, parte integrante de nosso ser? Ou seriam elas apenas intencionalidade, pavor, angústia e liberdade? Mesmo diante de nossa capacidade de raciocínio? Faz-se necessário também lembrar que toda sorte de ciência, iluminismo, humanidades, e tantos outros prodígios humanos constituíram-se após o advento da razão.
Pois bem, é certo que houve uma era em que o homem era acreditado apenas a introjetar em si o positivismo, que seria a plena capacidade humana de construir cada vez mais para a sociedade prodígios em todas as instâncias humanas, através da razão somente. Eu particularmente não desacredito nisto, pois como mostra o próprio existencialismo, se somos responsáveis não somente por nós mesmos mas também pelos outros enquanto “projetar-se” e fazer escolhas que abarquem toda a humanidade, a razão tão somente ainda é o exercício para tal, pois a teologia até então somente nos mostrou o contrário.
Mas após o positivismo, que já estava se esquecendo do homem novamente enquanto sujeito do conhecimento e sujeito possuidor de individualidade, a filosofia começa novamente a resgatar algo muito parecido com o primado da subjetividade empreendido por Descartes. Novamente tenta-se colocar o homem como necessidade central, para além daquelas que tão somente se preocupavam com as coisas e seus significados subjacentes. Tentou-se novamente então lidar com as coisas em si mesmas, sem teorizações, isto é, das necessidades reais do homem e também suas reais circunstâncias.
É interessante notar aqui também que a filosofia de Marx rompeu definitivamente com a teologia e com Deus, pois o homem estava sendo esquecido também em sua instância social. Outra evidencia de que a fé estaria esquivando o homem de sua real condição.
Devo salientar também que aqui o discurso não é da existência ou não de Deus, e por certo Deus (não como concebem os tresloucados por aí), em sua ininteligibilidade, algo que correspondesse à própria dimensão do universo e tantos outros debates metafísicos (filosóficos, é claro), não estaria, logicamente aqui, de igual forma relacionado à concepção apriorística do homem em toda sua limitação intelectual.
Oras, este é, como já havia dito aqui, o primeiro dos absurdos!
Como é possível, e de certa forma “surreal”, observarmos alguém bradar em esquinas, ou mesmo em igrejas, e atém em programas televisivos, qual a vontade de Deus a ser realizada neste mundo e mediante a condição humana???
qual o tamanho desta sandice e qual a tênue linha que separam estes indivíduos da loucura? Ou melhor, da soberba e pretensão?
O absurdo então se concretiza, por parte dos tresloucados, em reduzir uma gama de ininteligibilidade (Deus), um dos maiores problemas da filosofia no que concerne o “conhecimento”, a uma instância humana com todos os atributos humanos também, muito pardecido com a antropomorfização dos deuses de outras mitologias. Pasmem!
Voltando ao quesito de Angústia, não é a fé apenas, e nem Deus apenas, que livrará o homem de sua condição, da contínua necessidade de de realizar-se e da constante constatação de si mesmo, e de tantos outros em sua mesma condição. Por certo mesmo com a afirmação da existência de Deus, e se o mesmo fosse reduzido a uma escala humana, este estaria muito decepcionado como o homem em si se relaciona com ele mesmo, e com Ele.
Mas isto aqui não vem ao caso, pois o ponto central é da relação do homem com sua “má-fé” (inautenticidade) e de sua temporalidade, do divino “inalcançável”, da tensão dialética que se instala através da história e de sua condição humana, da aparente sensação de que Deus o abandonou, dos pedidos clementes da humanidade mediante o Deus que se cala. Somente a fé pode superar isto.
O salto de fé que o homem faz é, portanto, um estado genuinamente inserido nas necessidades de sua condição e contingência. Não poderia ser diferente dado sua natureza. Também seria igualmente impossível, no final das contas, exigir que muito disto fosse diferente, dentro do escopo existencial.
O problema então surge de como o homem, agora, lida com esses fatos. De um lado temos os céticos, de outro os ateus, e por fim os fanáticos que são inclusive capazes de atrocidades em nome de Deus. Verdadeiras “tribos” que se indispõem entre si.
Os céticos por certo dirão que o verdadeiro conhecimento de algo é impossível. Os ateus dirão que estão livres para todo o sempre, descompromissados com uma leitura mais “moralista”, que com certeza não significa que exista ateus que tenham um valor ético muito visível. E por fim os fanáticos religiosos irão em algum momento lançar o olhar reprovador do princípio do terceiro excluído, validando apenas a possibilidade de suas conjecturas ou não.
Mediante isto tudo podemos afirmar que a atitude filosófica visa abarcar a todos, pois o exercício do pensamento, em uma dialética ascendente, é muito prazeroso e clarificador, destruindo as “trevas” que ainda nos prendem às verdades incontestáveis de nossa concepção de mundo, do sendo comum. Pois afinal de contas, se há tantas religiões no mundo, o que de fato pode validar a hipótese desta ou daquela religião estar certa e a outra errada? E se há tantos deuses diferentes, pois assim elas dizem que os seus deuses são únicos, como ficaria a proposição de Deus enquanto ente indivisível? Ah, ele pode se mostrar de varias maneiras? Sim, compreendo! Pois até já me disseram que ele também é a bipolaridade e a dualidade do ser. O piot é ouvir “se Deus quiser”, ou “Deus quis que assim fosse”, mesmo mediante o quadro mais cruel de todos....hum, isto me soa outra justificação casualística, e este assunto ressuscitaria Heráclito ou até mesmo Aristóteles dentro de suas magnificas explanações para o início de tudo.
E por falar em subjetividade, não vale aquela sem nenhum critério que seja.
O inferno são os outros”, frase atribuída por Sartre ao exemplificar que dentro de nossos projetos e escolhas, devemos lidar com as atribulações alheias e sempre a isto transcender.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O problema da ética a partir das religiões - Osvaldo


Seguramente se pensa que ética e moral só podem ser advindas de um escopo teológico, isto é uma inverdade. Talvez a partir possamos estar inferindo que um mundo em que só existisse ateus fosse impossível. Mas a filosofia não está embasada na razão? E a partir dela o viver civilizadamente?
Para tal, precisamos ler e entender profundamente do que se trata a “atitude filosófica” mediante a vida, que requer a necessidade dos juízos postos de lado, e somente assim poderemos vislumbrar o que há de bom na filosofia e o que ela pode nos oferecer.
Eu sugiro um livro muito interessante, um dos melhores que já li sobre ética: “História da ética”, de Henry Sidgwick, editora Ícone. Ele trata muito bem da ética em uma linha do tempo clara e expõe de forma muito agradável aquilo que não pode ser tomado como um exclusivo viés de contextualidade da história, tampouco da teologia, pois questões éticas e morais estão subsumidas em caráter racional, e não da intangibilidade metafísica, por mais que se tente assim apregoar.
Há certos filósofos que trata muito bem este assunto, como Descartes, Schopenhauer, Kant principalmente, e Espiniosa entre tantos.
Se perceber, há uma tênue linha que os separam apenas acerca da ética, e ela está primordialmente subsumida ao escopo de investigação humana, pois aquela velha estória da ética concebida a partir do medo e da proibição divina somente resulta “ aos olhos de Deus”, e não de seu outrem, ou seja, em nome de Deus esquecemos da alteridade humana e de sua contingência, ou seja, aquilo que pode ser e aquilo que não pode ser em termos de acontecimentos, da diversidade humana.
O sujeito epistemológico não pode ter uma relação exclusivista com Deus, como que se um mundo além deste fosse a meta final, obliterando portanto as necessidades iminentes deste orbe que não pertence apenas ao nosso egoísmo, e sim à pluralidade que concebe os céticos, religiosos, não religiosos, à nossa prole e aos futuros integrantes da humanidade.
Penso que se Deus é o bem supremo, ele não concebe uma bipolaridade sobre o homem entre bem e mal, o mal não existe, o mal é apenas uma ilusão e necessidade institucionalizada. Ele não é intrínseco à raça humana, o mal é apenas a ausência de esclarecimento racional, vide Sócrates e Aristóteles e Platão.
Enquanto a hipótese de o homem porventura ter vivido sem religião até hoje, eu não saberia dizer, mas sou muito curioso em saber com estaria hoje o ocidente ou toda a humanidade se a era das trevas medieval que sucumbiu com o florescimento do expoente humano não tivesse existido.
A filosofia está aí para nos dar uma consolação na ausência da religião, o que não significa que Deus de fato não existe ou exista, mas que precisa ser ressignificado, não sendo mais um objeto de consumo, coerção, e tampouco um comércio, e nem mero conforto metafísico que nos desvie de nossa verdadeira condição humana. Se existimos, devemos de fato compreender nossa atuação no mundo e quais saõ nossas possibilidades concretas, senão a vida não passará de uma bipolaridade existencial e esquizofrênica, levando-nos ao fanatismo e à anulação de nossos predicados humanos, tendo sempre Deus como um mata- borrão e a crença que o homem é eternamente orfão de uma paternalidade alhures de sua prole.
Por certo podemos afirmar que a dicotomia bem e mal é um condicionamento, dentre vários, de nossa mente limitada. É o emprego leviano do princípio do terceiro excluido que há na filosofia no que tange a lógica.



quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Plotino, Neoplatonismo e Cristo. O fim do racionalismo grego - Osvaldo


Podemos citar alguns precursores de Plotino, como Filo e Orígenes.

Filo de Alexandria (25a.c) fi um elemento vital para o cristianismo, pois era contemporâneo de Cristo e foi um judeu ortodoxo que queria mostrar como a filosofia preparava a mente para as coisas mais “elevadas” (Deus).
Basicamente, foi um platônico que transformou os universais abstratos de Platão novamente em Deus. Isto abriu um precedente.
A filosofia foi ficando mais metafísica e mais interessada na estrutura da alma do que na ciência ou na política, ou mesmo na ética. Talvez a queda do Império Romano tenha levado as pessoas a se interessarem mais pela religião, mas juntar o racionalismo grego como o pensamento judaico-cristão virou moda. A filosofia “pura” foi ficando cada vez mais diluída.
Aliado ao fato, Orígenes (184d.c), achava que os cristãos podiam tomar a filsofia tomando emprestadas as melhores idéias. Viu que a noção platônica do mundo sensível como mero reflexo de um mundo inteligível superior parecia de acordo com o cristianismo.
Como outros platônico cristãos, interpretou a bíblia como uma alegoria simbolista. O que ele julgava impossível era ter apenas um sentido literal. Sua oposição literalismo fica estranha quando se pensa que ele tomou Mateus XIX, 12, ao pé da letra...”E há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do reino dos céus...”
Bem, finalmente em Plotino (204d.c), o mais espiritual dos filósofos, ele ignorou o pensamento político e social de Platão e fez de sua filosofia uma religião.
A parte mais interessante de seu pensamento foi a concepção de uma santíssima trindade que estruturava o mundo. a base disso era a noção das idéias de Platão, pois para Plotino havia O UNO: O Deus, uma divindade abstrata cuja emanação é a energia assim como a emanação do sol é a luz; O NOUS ou espírito: inferior ao Uno de quem é uma imagem e superior a todas as outras coisas; A ALMA: que é superior ao corpo e deseja contemplar a idéia de Deus.
Os neoplatônicos combinaram as idéias de Aristóteles, dos estóicos, em pouco de Pitágoras, do misticismo, com piadas de mito e uma reformulação platônica das coisas, onde o corpo era considerado mau e o espírito, bom.
O cristianismo, como todas as religiões, foi-se desenvolvendo com o tempo. Acabou sendo uma ambiciosa síntese de muitos elementos, o que provavelmente explica por que resistiu tão bem.
Tendo assimilado o neoplatonismo e Plotino, o cristianismo dominaria a filosofia até o renascimento. O livre pensar só era possível se fosse um livre pensar cristão.

Filosofia em seu sentido estrito - Osvaldo


Não podemos afirmar que fazer a política da boa vizinhança constitua um saber filosófico em seu “sentido lato’, em detrimento de seu sentido “estrito”, que está calçado nos problemas referentes ao conhecimento, ao que pode existir e o que existe de fato, de como o conhecimento é dado e o que podemos efetivamente conhecer.
Por certo volitar entre as dúvidas mais áridas e duras do saber filosófico não é algo que anima ninguém, e por certo é natural que o homem procure suas muletas existências. Penso que há uma tênue linha que de fato explicita o que é uma liberdade, calçada na liberdade apenas de conferir que toda crença verdadeira é falsa, e requer rigor e coragem para com a própria existência para assim a promulgar.
Naturalmente todo o processo dos pensamentos aprioristicos humano jaz sob uma carapaça de pseudofilosofia. Como pode a própria razão determinar os fatores de cognosciblidade de algo que está sumariamente vinculado à crença do que é tido como verdadeiro?
O sentido real do que é filosofia, e em especial o da filosofia universitária, não pode recair sob conceitos ajuizados e da posse das proposições filosóficas ao longo da história tidas como certas em nosso juízo. Mas é claro que isso é uma sugestão acadêmica e não mandatória.
Até que ponto de fato estamos “filtrando” as crenças verdadeiras sem nossos juízos de lado? Não saborearíamos certo vislumbre da complexidade da filosofia se ao menos deixássemos nossos juízos momentaneamente de lado?
A filosofia deve ser uma reflexão sistemática, e não “um por todos e todos por um”. Análogo a um viés democrático, é salutar que possamos abraçar conceitos diversos com a suspensão dos juízos e que os mesmos conceitos possam gerar a escala dialética ascendente de acordo com os seus antagonismos. Se então temos uma indissolúvel crença em um viés exclusivista, o filosofar no sentido estrito já se corrompeu.
É evidente também que a instituição universitária no ensino de filosofia esteja mais aprumada com sua historicidade e linha do tempo, classificando-a em momentos distintos na historia. Mas também perdemos muito em não fazer uma intertextualidade de todos esses fatos com a contemporaneidade da filosofia, hoje, e seus grandes pensadores, cada vez mais “emblemáticos” ao desafiarem toda a filosofia passada.
Hoje temos problemas filosóficos que também inclui a própria metafísica como pretensa candidata à obliteração, pois o que se apregoa hoje é que, historicamente, essas questões que estão simplesmente fora do escopo da investigação humana sempre exerceu um fascínio sobre os filósofos, e ainda não é compreendido o que se pode obter da existência de uma dimensão metafísica como uma égide sobre um mundo em que fisicamente é onde nossos pensamentos e desejos têm alguma aplicação. Não obstante, no seio da filosofia analítica, hoje, temos uma pesquisa sobre a linguagem.
Propor aqui uma via de exclusão ao terceiro comentário, ou simplesmente abarcar aquilo que vai de acordo com nosso juízo somente seria incorrer de fato ao postulado kantiano de que nossa apreensão de mundo e das idéias passa por uma serie de categorias que a modela de acordo com nossa mente que está aquém de um conhecimento genuíno e certo, e de que nossa razão não é suficiente segura para ajuizar conceitos definitivos como de Deus e mesmo dos dogmas.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Do eclipse da razão - Osvaldo


Por certo podemos dizer que hoje o que resta daquele período clássico em que a polis surgiu é: NADA. Isto é de fato um olhar niilista sobre o mundo.
De forma análoga ao um período medieval, penso que o homem parte cada vez mais rumo ao eclipse da razão, razão esta que está diametralmente oposta ao racionalismo filosófico ou da razão filosófica. Ela é sistematicamente apenas uma razão instrumental que atende aos interesses de uma sociedade em que todos somos co-autores, que é a ditadura doas coisas materiais em detrimento das intelectuais.
Onde falta a filosofia em seu sentido estrito, que deixou seu campo para o individualismo, o relativismo, e o ceticismo filosófico, só poderá haver as sombras da caverna de Platão.
Muito evidentemente escalamos questões cientificas e melhorias em prol da humanidade em geral, porem não do humanismo. Deixamos de ter aquela noção básica dos instintos que protegem a vida.
Não há nada de significativo hoje no que concernem as questões que sempre buscou a filosofia, pois os dogmatismo são ainda clássicos sobre o homem, e mesmo assim, vivemos numa ambiguidade sem precedentes.
O homem hoje é fruto de confluências externas que lhe deixa disforme, e para complementar esta deformidade a psicologia, sobretudo a análise freudiana, lhe confere uma evidente “verticalidade” interna provinda da necessidade de “assentamento” e coadunação com as idiossincrasias sociais que lhe impinge sua formalidade diante do status quo.
Como parte da filosofia e o inadvertido “empréstimo” que Freud fez de Nietzsche e Schopenhauer às suas proposições, as mesmas são passíveis de criticas por se tratar de outra teoria.
O eclipse da razão provém também da fragmentação dos saberes, assim como se fragmenta o homem em partes, esquecendo –se de sua unidade de Ser imutável, mutável apenas na aparência daquilo que se transforma de acordo a necessidade contextual e ilusória que dão uma propriedade de transformação perene.

sábado, 23 de outubro de 2010

Da atual afronta à Ética política - Osvaldo


Podemos dizer que a Ética é uma das questões mais polemizadas no compêndio de discussões filosóficas, em seu sentido estrito. Mas diametralmente oposto ao debate das questões da moral e dos costumes de cada nação, a ética política sempre tentou para uma sistematização lógica dentro dos pressupostos sociais que determinam seu sistema de governo por assim dizer,e em nosso caso, a democracia.
Podemos então deixar nossos juízos de lado aqui, em especial os aprioristicamente partidários, para nos situarmos na discussão filosófica que, por sua vez, desde o inicio da civilização ocidental, se remete à Ética como “investigadora’” e balizadora destas normas sociais e principalmente dos que detém o poder em nome das massas.
Pressupõe-se que, embora a vontade da maioria não necessariamente atenda a vontade de minorias, a Ética, independentemente de partidos, visa um escopo de conformidades estanques e não voláteis que visam , no caso da democracia, a liberdade de expressão, o não aparelhamento partidário em questões unilaterais, e o exemplo social de que os homens no poder sirvam de antemão como exemplo organizacional ao qual todo cidadão fomenta por observância.
Não podemos permitir, em uma Ética política e uniforme, que questões de relatividades partidárias engendrem o desmantelamento das instituições que solidificam a forma de governo democrático, em prol de uma sandice individualizada, paternalista e messiânica que com bravatas e uma equipe de “pedreiros” venham a ruir os pilares daquilo que atenda o bem comum a todos os cidadãos. Maquiavel aqui estaria aqui mais vivo do que nunca.
Não precisamos se versados em filosofia e Ética, mas o menos incautos dos homens entenderá que um governo, um partido e um presidente que enceram em si mesmos a governabilidade de uma nação ignorando as nossas instituições que deveriam se sólidas, não se encaixam em um escopo que visa, respectivamente, sua preservação.
Exemplos como barganhas mirabolantes e televisivas e de acordos pífios com a corrupção de muitos outros políticos encerram a verdadeira prostituição do intelecto ético-político .
Sem sombra de dúvidas, estes homens levam ao pé da letra uma máxima sofista de que um homem é sua própria medida para todas as coisas, mas isto se torna perigosamente banal no que tange sua representatividade.
Se os fins aqui não justificam seus meios, isto só pode ser um exemplo de retrocesso para aquilo que há pouco abrimos os olhos após um período de trevas com os ditames de uma política ditatorial.
Afinal de contas qual seria a tênue linha que separa o desrespeito às instituições maiores de um caudilho tresloucado de bravatas populistas e pueris? Fazendo vistas grossas ao despudor endêmico de um partido que fora outrora a máxima de uma política esquerdista?
Como em filosofia não se pode pousar sobre partidos, credos, e etnias, o papel da ética ainda é estritamente relacionado a esta inspeção, não importando quem esteja sob as luzes deste holofote.
De certo os mais incautos não perceberão, de seus políticos pouco éticos, o exemplo que estes mesmos deveriam dar. Seja talvez pelo fato de os fins não justificarem os meios, ou mesmo da própria lacuna enorme entre nossa educação e a implementação de uma critica nela própria. Tudo isto pode ser talvez até explicado. Mas em se tratando dos ditos intelectuais que dizem amém a tudo isto, de forma vergonhosa para sua classe, ou eles não sabem de fato do que se trata ética na política, ou eles ainda sonham, como os fins não justificam os meios, com aqueles vieses políticos e sociais que mostraram ser na história falhos e autoritários, e que cercearam toda forma de expressão livre de seus cidadãos e fugiram de um bojo em que se encerra a Ética e o humanismo em potencial.
Nada explica que uma vanguarda de intelectuais faça, discretamente ou publicamente, bravatas em prol daquilo que vai contra o que encerra em seu cerne a mais das altas discussões acerca da Ética política.
Em um campo de neutralidade, esta Ética foi extinta, ao menos o pouco daquilo que restava e estava estritamente relacionada a uma democracia jovem, onde errar é humano, mas perpetuar os erros que ecoam a iminência do caudilhismo, é insensato, para não dizer outra coisa!

sábado, 16 de outubro de 2010

Santo Agostinho e o problema do Mal - Osvaldo


Esta é uma elaboração não apenas centrada na visão de Agostinho para o problema do mal como também encerra em si uma crítica ao mesmo, e para aqueles vieses teológicos que de certa forma coadunam com tal explanação para o mal no mundo.
O problema do mal se constitui em um dos grandes problemas da filosofia, e nada melhor, neste contexto, de citar Santo Agostinho que inexoravelmente “precisa” elaborar, por assim dizer, um pensamento que unifique um entendimento das idiossincrasias existenciais com fé e razão.
Podemos então dizer que o mote principal de Agostinho para o mal e seus desdobramentos é a idéia de que o mal e si é necessário para que possamos apreciar melhor o bem.
Santo Agostinho observou que, se nada de mal acontecesse alguma vez, não poderíamos conhecer e apreciar o bem.
É interessante lembrar que ele, antes de ser cristão, foi um maniqueísta e o Maniqueísmo defendia que havia dois princípios opostos: um Deus bom e outro mal e que portanto o mal era uma substancia. Somente depois, Santo Agostinho vai encontrar uma fantástica solução para a resolução do problema. A solução deste problema por ele achada foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica, e marca uma diferença fundamental entre o pensamento grego e o pensamento cristão. Antes de tudo, nega a realidade metafísica do mal.
Ele constata que o mal não é um ser, não tem caráter ontológico, não tem nada de positivo, enfim ele é um não-ser. Ele diz: “O mal não tem natureza alguma, pois a perda do ser é que tomou o nome de mal”.
Se todo o bem fosse retirado das coisas boas, nada sobraria, pois o mal não é uma substância como queria os maniqueístas, e assim sendo seria impossível que o mal tenha se originado de Deus, pois Deus é aquele que dá o ser às coisas.
A solução de Agostinho para o problema do mal está relacionada à pergunta “o que é o mal?”
Em Agostinho temos dois silogismos acerca da inautenticidade do mal:
A-1) Todas as coisas que Deus criou são boas; 2) o mal não é bom; 3) portanto,o mal não foi criado por Deus.
B-1) Deus criou todas as coisas; 2) Deus não criou o mal; 3) portanto,o mal não é uma coisa.
Agostinho observou que o mal não poderia ser escolhido, pois ele não era uma coisa a ser escolhida. Alguém pode apenas afastar-se do bem, isso é, de um grau maior para um grau menor (na hierarquia de Agostinho) desde que todas as coisas são boas. Pois, segundo ele, quando a vontade abandona o que está acima de si e se vira para o que está abaixo, ela se torna má - não porque é má a coisa para a qual ela se vira, mas porque o virar em si é mau. O mal, então, é o próprio ato de escolher um bem menor. Para Agostinho a fonte do mal está no livre arbítrio das pessoas e na contemplação das dimensões do mal que, a saber, são de caráter metafísico, físico e moral.
Esta observação é parcialmente lógica e parcialmente psicológica. Logicamente, na ausência do conceito de mal não poderia haver uma concepção do bem, tal como não poderia haver uma noção de alto na ausência de uma noção de baixo. Não poderíamos sequer saber o que é o bem se não tivéssemos o mal para servir de comparação. Alem disso, psicologicamente, se nunca sofrêssemos, tomaríamos as coisas boas por garantidas e não as desfrutaríamos tanto. Como poderíamos reconhecer e desfrutar a saúde se não existisse a doença? Portanto, desejar um mundo que contenha apenas coisas boas é uma tolice.
No entanto, mesmo que isto seja verdade, explica apenas por que razão Deus poderia permitir a existência de algum mal. De fato podemos precisar que nos aconteça algumas coisas más de vez em quando, apenas para que não nos esquecermos que somos tão afortunados. Mas isto não explica por que razão há tanto mal no mundo. O problema é que o mundo contém mais mal do que necessário para apreciar o bem. Se por exemplo o numero de pessoas que morrem de tuberculose por ano fosse reduzido para metade, isso seria ainda suficiente para nos fazer apreciar a saúde. E como já temos que lidar com a tuberculose, não precisamos realmente do câncer, e ainda menos da AIDS, da distrofia muscular, da paralisia cerebral, do Ebola, da doença de Alzheimer e por aí vai.
A idéia deque o mal é uma castigo pela conduta imoral é de caráter teológico e remonta à história da Criação do Gênesis, que nos diz que inicialmente os seres humanos habitavam em um mundo sem mal, mas de repente entram dois protagonistas famosos nesta histeria lúdica chamados de Adão e Eva, e com a ajuda de uma “serpente”, o resto é “estória”.
O problema de Agostinho passou a ser casar o conhecimento antigo com sua nova crença e mostrar que eram interdependentes.
Ele também tinha um problema com o Tempo e a Criação. Segundo o Gênese, deus criou o mundo do nada. Mas na filosofia grega havia uma forte objeção a algo ser criado do nada. O que Deus andava fazendo antes de criar o céu e a terra?
Agostinho não aceitava responder essa pergunta, mas fazia a seguinte piada: “preparando o INFERNO para quem mete o bedelho nos mistérios”.
Se não debatermos filosoficamente estes fatos, vai parecer que todo argumento que o refuta é de caráter reducionista e dispensável, dado o caráter próprio do que a humanidade entende por teologia e suas premissas atemporais, dogmáticas e inexoráveis.
Dizer que podemos livrar a religião do criticismo filosófico, este engendrado a partir dos grandes iluministas, é um erro crasso, que foge do escopo da própria filosofia em seu sentido “estrito”, o que difere do senso comum e das crenças verdadeiras. Assim como é errôneo dizer que o próprio movimento do cristianismo da era medieval fosse é um movimento que concebe o homem em toda sua totalidade a partir de pressupostos alhures à sua própria natureza humana e pragmática. Este é um erro oriundo não da tentativa de conceber Deus racionalmente, mas de impor ao homem, a partir de Deus, premissas santificadas que estão além de sua praticabilidade, que o remete à culpa de “nada”, e o amedronta por séculos até os dias de hoje.
Não creio que uma lógica axiomática de belos dizeres dogmáticos e religiosos venha a atender os grandes problemas da humanidade que estão, livremente, no acesso do campo da filosofia estrita e questionadora, que é um campo neutro, sempre sendo bombardeado, hoje, pela ciência e a religião.
Impreterivelmente a filosofia para alguns estancará no período medieval, e me pergunto se ainda assim os coadunados apenas com Platão, Sócrates e Aristóteles, que fomentam Agostinho e Aquino, não reduzirão ao pó os outros vieses filosóficos até a nossa contemporaneidade, que analogamente ao processo dialético histórico, também evoluiu.
Digo-lhe que há muitos problemas relacionados à atemporalidade e supremacia da verdade a partir da teologia, me parece que de fato ela só pode ser apreendida a partir de sua infantilidade expoente no inconsciente humano, caso contrário o homem, ao invés de ficar “encima do muro do agnosticismo” hoje, verificaria de pronto a improcedência da teologia como forma de controle passional versus a “racionalidade” da mesma.
Se não forem as questões políticas como debatemos de início aqui, adentraremos em outro debate exaustivo acerca daquilo que é “humanamente constituído” como verdades eternas, e muitas delas que endossam dogmas que não atendem as necessidades do homem moderno, se é que alguma uma vez o atendeu!
Há de ser compreendido aqui que as questões não são de caráter de refutação do viés religioso a esmo, mas sim de como esta é classificada dentro da teoria do conhecimento, e como pode ocorrer aos doutos da igreja se apoderar de questões que endossam a irrefutabilidade daquilo que é incognoscível, e quem tem o direto de determinar que Deus ora castiga, ora ama; ora perdoa, ora abençoa? Que contribuição estaríamos aqui falando deste “caldinho”?
Não dá para desatar Agostinho e Aquino nesta produção histórica, mesmo se assim fosse, iríamos descambar para outras questões muito pertinentes que estão inexoravelmente atreladas ao pensar peculiar de sua época mediante uma Europa desmantelada, em que o homem foi incitado a olhar para longe de si mesmo.